
Se for possível levar a sério a nova expectativa de um cessar-fogo entre Estados Unidos e Israel, de um lado, e Irã, de outro, haverá perspectiva de alívio para o mercado de petróleo. Até agora, porém, o preço do barril segue em US$ 108, mais perto dos US$ 110 do que de uma baixa relevante. O terceiro choque de petróleo em ano eleitoral no Brasil faz com que se busque uma solução para o ponto mais suscetível do país: a dependência de combustível importado para suprir cerca de 30% do consumo nacional.
Sem mecanismos de estabilização ou estoques estratégicos, as soluções duradouras e estruturais para suprir esse déficit nacional de produção interna não são de curto prazo. De um lado, a Petrobras refaz planos para alcançar capacidade de refino doméstica capaz de abastecer 100% do mercado doméstico de diesel, mas reconhece que não será possível alcançar esse objetivo antes de cinco anos – um prazo até otimista.
Na semana passada, a presidente da estatal, Magda Chambriard, disse que a revisão do plano de negócios da companhia para o período de 2026 a 2031 vai incluir esse objetivo. A meta atual é elevar a capacidade das refinarias da Petrobras para alcançar 80% do consumo nacional. O aumento seria focado nas unidades de Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco, que produzirá mais 88 mil barris diários de diesel, e a Duque de Caxias (Reduc) no Rio de Janeiro.
Mas o Brasil, além de ser autossuficiente em produção de petróleo e exportador líquido, tem outra vantagem competitiva – e invejada – ante a maioria dos países: seu programa de biocombustíveis. Atualmente, o diesel vendido nos postos tem 15% de biodiesel (B15). E seria possível duplicar rapidamente essa proporção, para chegar a um B30 que resolvesse a dependência nacional?
O diretor-superintendente da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), Donizete Tokarski, diz que há capacidade para elevar a mistura de forma imediata para 17%. Isso aliviaria a necessidade de importação de diesel em cerca de 1,4 bilhão de litros ao ano, segundo o executivo. Hoje, o Brasil compra cerca de 17 bilhões de litros de no mercado internacional. Mas também diz que o B30 precisaria de mais tempo.
— Estamos produzindo 10 bilhões de litros de biodiesel ao ano. Para acabar com a importação de diesel, seria necessário chegar a 27 bilhões de litros. Não vamos ter como acabar com a demanda da importação de diesel tão cedo. É possível, mas não é nosso desejo substituir tudo, porque precisamos de uma escala ao longo do tempo — avalia Tokarski.
O cronograma da Lei do Combustível do Futuro projeta aplicação de B20 até 2030. O executivo, no entanto, reconhece dificuldades para implementar. A elevação de 15% para 16% deveria ter entrado em vigor no mês passado, mas não foi aprovada. Tokarski vê pressões setoriais freando o avanço do segmento. Conforme o executivo, o Brasil tem capacidade instalada de produção de 16 bilhões de litros de biodiesel ao ano, suficiente para atender, em ampliação gradual, mistura de cerca de 22% de biodiesel ao diesel.



