
Fechar o acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) era uma das prioridades da embaixadora do bloco europeu no Brasil, Marian Schuegraf, como relatou à coluna há quase dois anos. Neste 1º de maio, a parte comercial do tratado entra em vigor de forma "provisória", para driblar a decisão do Parlamento Europeu de submeter o texto ao Tribunal Europeu. A diplomata alemã, da província de Franken, pode considerar a tarefa cumprida. Para marcar a data, aceitou responder por e-mail alguns perguntas da coluna sobre a nova fase da relação entre os 31 países envolvidos.
Qual é a expectativa da UE com o acordo com o Mercosul?
São altamente otimistas para a UE, o Mercosul, o Brasil e Estados-chave como o Rio Grande do Sul. A UE já é o segundo maior parceiro comercial do Brasil e o principal investidor estrangeiro, e o acordo comercial, que entra em vigor provisoriamente em 1º de maio, nos permite ampliar esses avanços e fortalecer ainda mais os laços. Pessoas de ambos os lados têm a ganhar de forma concreta com a eliminação de tarifas e barreiras não tarifárias, o que tornará os produtos mais acessíveis e criará empregos de qualidade. Igualmente importantes são nossos compromissos conjuntos com a sustentabilidade ambiental e social.
O que o bloco pretende vender mais aos latinos e o que pretende comprar mais dos países do Mercosul?
Um dos principais objetivos do acordo é aprofundar o comércio bilateral, aproveitando as complementaridades naturais entre as duas regiões, ao mesmo tempo em que promove a integração das cadeias de valor em ambos os lados do Atlântico. Do lado do Mercosul, o acordo melhora o acesso das exportações agrícolas ao mercado da UE, inclusive por meio da ampliação de cotas tarifárias para produtos-chave como aves, açúcar e etanol. Isso cria oportunidades concretas para que os países do Mercosul ampliem sua presença no mercado europeu. E também apoia a diversificação das exportações brasileiras para além da agricultura. Ao reduzir tarifas e melhorar as condições regulatórias, abre espaço para que exportações industriais de maior valor agregado, como autopeças e componentes, máquinas e equipamentos, produtos químicos e plásticos, além de alimentos processados, ampliem gradualmente sua participação no mercado da UE. Para a União Europeia, o acordo facilitará o aumento das exportações tanto de produtos agroalimentares de alta qualidade quanto de bens industriais. Os consumidores do Mercosul podem esperar maior disponibilidade de queijos, vinhos e chocolates europeus. A UE está bem posicionada para expandir as exportações de produtos industriais, incluindo máquinas, autopeças e produtos farmacêuticos e químicos, setores nos quais as empresas europeias estão já profundamente integradas nas economias do Mercosul.
O Estado é um dos maiores exportadores brasileiros de móveis, mas a UE ainda absorve apenas uma pequena parcela dessas vendas.
Que oportunidades existem para o RS?
Para o Rio Grande do Sul, as oportunidades são significativas. Em 2025, o Estado exportou R$ 14 bilhões para a UE, cerca de 13% de suas vendas externas. Essa pauta de exportações é concentrada, com tabaco e ração animal respondendo por metade do total, o que revela espaço para diversificação. Setores competitivos podem ganhar novo impulso. O Estado é um dos maiores exportadores brasileiros de móveis, mas a UE ainda absorve apenas uma pequena parcela dessas vendas. Com o acordo, os fabricantes do Rio Grande do Sul, já competitivos em qualidade, também poderão competir em preço no mercado europeu. Há potencial adicional em máquinas agrícolas, alimentos processados, vinhos e espumantes — segmentos alinhados à demanda europeia. O Estado também se destaca por sua agroindústria sustentável, compatível com os padrões da UE. Em junho de 2025, a seção de Comércio da Delegação da UE liderou um grupo de diplomatas comerciais de 11 Estados-Membros em uma visita de três dias ao Rio Grande do Sul, em colaboração com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e sua afiliada local, a Fiergs. O programa incluiu uma reunião com o vice-governador Gabriel Souza, a agência InvestRS e visitas a fábricas de biocombustíveis, tratores, móveis, utensílios de cozinha e calçados. Apesar das diferenças de porte e estratégia, todas essas empresas têm a Europa em seu radar, seja como mercado consumidor, seja como fornecedora de máquinas ou componentes. Estão cientes das exigências da UE em termos de rastreabilidade e sustentabilidade, bem como das oportunidades esperadas com o acordo UE–Mercosul.
O fato de entrar em vigor de forma provisória representa algum risco?
A entrada em vigor é provisória porque o Parlamento Europeu ainda precisa votar. O Parlamento Europeu submeteu o acordo ao Tribunal de Justiça da União Europeia, que pode levar até dois anos para emitir um parecer. Confiamos que, durante esse período, a aplicação provisória demonstrará os muitos benefícios do acordo, inclusive para os agricultores europeus.
A guerra no Oriente Médio já tem um impacto tangível na União Europeia.
E ainda no capítulo risco, quais os impactos da guerra no Oriente Médio na UE? Já se sabe que companhias aéreas estão cancelando voos, existem outros impactos econômicos?
A guerra no Oriente Médio já tem um impacto tangível na União Europeia, tanto direto quanto indireto, especialmente por meio dos mercados de energia e das interrupções no transporte e nas cadeias de suprimento. As companhias aéreas europeias tiveram que cancelar ou redirecionar voos, aumentando os custos operacionais, prolongando os tempos de viagem e prejudicando o fluxo de passageiros e cargas. O Oriente Médio desempenha um papel fundamental no fornecimento global de petróleo e gás, e qualquer escalada que afete o Estreito de Ormuz pode rapidamente se traduzir em preços globais de energia mais altos. Para a UE, isso tem um impacto direto por meio do aumento dos custos de importação, pressionando a inflação e os custos de produção industrial. Há também efeitos indiretos sobre o comércio e as cadeias de suprimento. O aumento do risco geopolítico eleva os custos de transporte marítimo, os prêmios de seguro e pode interromper rotas marítimas essenciais entre a Europa e a Ásia, afetando a disponibilidade e o preço de insumos para as indústrias europeias. A Europa, assim como muitas outras partes do mundo, deverá registrar uma perda relevante nas perspectivas de crescimento.





