
Com duas décadas de experiência no setor financeiro, Ana Carla Abrão é, desde janeiro de 2025, diretora-presidente da Associação Open Finance, com base em sistema proposto no início dos anos 2020 pelo Banco Central para aumentar a competição no sistema financeiro nacional. Já atuou em entidades como Tendências, Oliver Wymam e Itaú, além de ter passado pelo Banco Central e pela secretaria da Fazenda do Estado de Goiás. Antes da atual função, foi vice-presidente de novos negócios na B3, a bolsa de valores brasileira. Formada em Economia pela universidade de Brasília, tem mestrado pela EPGE/FGV e doutorado pela FEA USP. Esteve em Porto Alegre para participar do Fórum da Liberdade.
A crise do petróleo aberta pela guerra no Irã vai levar o mundo à estagflação, palavra que combina desaceleração da atividade com inflação alta?
Essa é a direção. Se o conflito geopolítico não se resolver no curto prazo, a tendência é de um ambiente muito ruim do ponto de vista do crescimento. No mundo todo, não só no Brasil, a política monetária começava a dar alguns sinais de flexibilização. Mas o preço do petróleo tem forte impacto sobre a inflação. Tudo volta para trás e o impacto se mantém no médio prazo, com política monetária mais apertada. Há grande incerteza sobre se o mundo vai voltar a uma normalidade que permita flexibilizar a política monetária. E o juro real em patamar tão elevado há tanto tempo tem forte impacto no endividamento das empresas, leva à insustentabilidade da dívida privada. Vivemos uma situação que merecia, sim, uma flexibilização. Agora, cada vez temos uma sinalização diferente dos Estados Unidos, o que é grande fator de incerteza. As manifestações são sempre em direções contrárias. Se não houver clareza sobre a solução do conflito, de fato pode comprometer a trajetória de queda do juro.
Por que o mercado parece otimista, mesmo assim?
Não é só otimismo. O mercado opera com um cenário em que as coisas podem se resolver. Como não há clareza, o mercado mantém o cenário-base. Mas a qualquer momento pode começar a dar mais probabilidade a cenários mais adversos. Essa chave muda muito rapidamente. É natural que não precifique enquanto há incerteza. Não consegue definir para onde esse processo vai levar.
Um juro real de 10% ao ano durante tanto tempo compra seu preço.
Qual é seu diagnóstico sobre o endividamento privado?
Um juro real de 10% ao ano durante tanto tempo compra seu preço. Faz o seu trabalho para conter o crescimento da atividade, se vê no campo da inflação. Mas como todo remédio, tem o efeito colateral do endividamento. É um resultado absolutamente esperado. E combinado a um país com baixa educação financeira, que usa crédito rotativo, o resultado é muito ruim do ponto de vista da saúde financeira, principalmente das famílias. É preciso trabalhar por mais educação e letramento financeiro para garantir que as pessoas façam escolhas mais sustentáveis. O que resolve, de fato, é começar a ter redução na taxa básica, mas instrumentos de open finance podem ajudar.
A associação participa do programa do governo para reduzir o endividamento?
Não, o que fazemos é de forma estrutural, para garantir que pessoas e empresas tenham tenham acesso a maior oferta de crédito e mais competitiva no custo. Por meio do Open Finance, há possibilidade de fazer portabilidade do crédito sem garantia por meio de um processo competitivo que o próprio mercado permite. Isso pode gerar redução de custo, pode trocar dívida cara a partir de oferta de juro mais barato de forma rápida e inquestionável. Um dos problemas relacionados ao letramento financeiro é uma renegociação de dívida que deixa a parcela menor, mas vem acompanhada de aumento de prazo e de valor. Acaba pagando custo maior muitas vezes. No Open Finance, atuamos com agenda de redução de custo de crédito, aumento do acesso, com ampliação e democratização do crédito, sempre focado no benefício para o consumidor.
O Open Finance muda o eixo de poder decisório, tira o da instituição financeira e dá à pessoa que tem conta.
Como opera hoje?
É uma agenda liderada pelo Banco Central (BC), baseada em operação de estrutura pública em ambiente regulado. Hoje funciona como parceria público privada, liderada pelo BC mas operada pelo mercado, por meio de uma associação privada. A comparação mais próxima é com o FGC (Fundo Garantidor de Créditos), rede de proteção ao depositante. É pública, todas as pessoas que depositam recursos têm acesso, mas é operada de forma privada. O Open Finance é similar. Tem infraestrutura gratuita para consumidores e empresas e é operado por participantes privados do mercado. Tem de obedecer mecanismos de segurança definidos pelo BC, que quer gerar mais valor para a sociedade brasileira aumentando a competição (no sistema financeiro).
Como funciona?
É um primo do Pix, que é controlado pelo BC. O Open Finance é um compartilhamento de estrutura operado 100% pelo mercado. É como se fosse o encanamento do sistema financeiro, um conjunto de conexões. Permite que o cliente da instituição A envie as informações financeiras para a instituição B, para que conheça melhor o cliente e possa oferecer produtos, serviços e crédito. Isso permite mais competição. Na medida em que as informações são compartilhadas, o cliente pode comparar e escolher a oferta que melhor o atende, a mais barata e mais adequada a seu momento de vida. O Open Finance muda o eixo de poder decisório, tira o da instituição financeira e dá à pessoa que tem conta.
O crédito privado garante possibilidade de crescimento, investimento, gera renda e bem-estar. Quando há exagero, bolhas acontecem.
Para acessar, é preciso ter ao menos um aplicativo, certo?
Sim, tem de ser por app. Uma pesquisa mostrou que 49% do contingente com conta corrente já está no Open Finance e deu ao menos um consentimento (o compartilhamento de dados só pode ser feito com autorização do correntista). E nunca fizemos propaganda maciça. As pessoas aderiram por ter propensão ou por ver algum benefício. O volume de operações é de 10 bilhões de chamadas de dados por semana. Há um ano, era de menos de 3 bilhões. É sinal de que estão usando, tanto as instituições quanto as pessoas.
Qual é o tamanho de preocupação com o crédito privado?
É um instrumento superpoderoso, mas precisa ter transparência e sustentabilidade. E suitability, para usar uma palavra de mercado que se refere à adequação dos instrumentos por parte de quem compra. Precisa garantir que quem compra esse crédito entende o que é. O crédito privado garante possibilidade de crescimento, investimento, gera renda e bem-estar. Quando há exagero, bolhas acontecem. Com o mercado financeiro cada vez mais interconectado, um crédito originado em operação por banco ou sociedade de crédito foi parar no mercado de capitais e distribuído a pessoas que não têm clareza sobre onde tudo começou. Dívida privada precisa ser olhada de forma mais ampla por Banco Central e CVM (Comissão de Valores Mobiliários, a "xerife" do mercado de capitais). O mercado de crédito deve ser saudável para não deixar gente no prejuízo, especialmente combinado ao atual nível de juro.
É difícil imaginar o cenário que virá se a flexibilização da política monetária não acontecer.
Você comparou, em governança, o Open Finance ao FGC, que passa por dificuldades. Terá de mudar?
O FGC é fundamental, é o seguro do sistema financeiro. Como tudo, há mau uso do sistema de garantias. Temos de estar atentos à evolução do mercado, o FGC também tem de evoluir. Há discussão sobre limites de garantia, cobranças diferenciadas com base no risco de cada instituição. Houve uso criminoso da garantia, estávamos tratando de crime organizado, de quadrilhas. É um problema criminal. Vamos ter avanços regulatórios para o FGC em breve.
Com tantos problemas gerados pelo juro alto, o possível adiamento do ciclo de baixa no juro preocupa?
É difícil imaginar o cenário que virá se a redução no juro não acontecer. Existe uma agenda que está esquecida, que é a do ajuste fiscal, de redução de gastos. É uma reforma estrutural que o Brasil evitou nos últimos anos. Terá de ser enfrentada por quem quer que venha no próximo ano. É uma discussão difícil politicamente, mas inevitável. E será ainda mais forte se não houver flexibilização monetária. E pode até precisar ser antecipada se tivermos de conviver com essa taxa. Não é um debate que possa ser adiado.
Acredita que o tema vá para o debate eleitoral?
Pode ser que não vá para o horário eleitoral, para os debates televisivos. É nossa responsabilidade, dos economistas em particular, trazer o debate à tona. Não dá para esperar se os candidatos vão trazer a proposta. Precisamos ao menos colocar o desconforto sobre a necessidade de enfrentar o tema. Tem sido ignorado em 2018, em 2022. Ficamos muito presos ao debate dos costumes.





