Em março, o petróleo teve o maior aumento de preço mensal da história, de 64%. Ainda havia expectativa de um fim da guerra a qualquer momento, mas uma indústria gaúcha comandada por duas irmãs, Natalie e Carolina Ardrizzo, tomou uma decisão que contrariava seu passado e marcava as mudanças de uma marca tradicional para os gaúchos, a Termolar, fundada em 1958.
Diante do aumento de 20% cobrado pela Braskem, fabricante de sua principal matéria-prima – resina plástica em suas várias composições, baseada em derivados de petróleo – a indústria encravada na área urbana de Porto Alegre decidiu repassar. Elevou os preços de seus produtos em cerca de 10%. Quase ao final do segundo mês do conflito no Oriente Médio, tudo indica que foi uma medida acertada.
— No passado, a gente não fazia isso no tempo certo porque os pilares da estratégia não estavam claros. Temos uma postura de inteligência de negócios na área comercial que foi muito detalhada nos últimos meses e nos permitiu avaliar com mais precisão – afirma Carolina, explicando como foi a decisão entre oportunidades e riscos do repasse.
Carolina havia saído da gestão do dia a dia para ir para o conselho de administração, agora voltou para a operação, com olhar mais estratégico. Natalie segue como CEO, quase em formato de cogestão. Carolina cuida de processos e execução, Natalie se dedica a marca e desenvolvimento de produtos.
Nessas duas áreas, a empresa prepara um reposicionamento de marca, inclusive com novo desenho da assinatura, e passa a atuar em novos segmentos, como utensílios domésticos de vidro, que devem ser lançados nos próximos meses. Na origem do planejamento, era uma "simples" diversificação – seria um passo ousado, dados os 68 anos da empresa. Agora, com a pressão de custo do plástico, segmento com o qual a Termolar se identifica, ganhou relevância extra.
Outra mudança que está contratada, mas sem prazo de execução é a de endereço. A Termolar ocupa uma enorme área na Zonal Sul de Porto Alegre e pretende se mudar, provavelmente até de cidade, diz Natalie:
— É um processo natural a gente sair daqui, porque a cidade cresceu em volta, logisticamente não é um local satisfatório, o parque industrial é antigo. Recebemos algumas propostas pela área, ofertas de alguns municípios, mas é um momento difícil para fazer investimentos com a Selic alta. Esse projeto está um pouco parado, mas a decisão de sair está tomada — detalha Natalie.
Uma empresa comandada por duas mulheres tem os mesmos desafios das lideradas por homens, e alguns extras. A Termolar tem um programa de empoderamento feminino com mentoria direta das duas irmãs que, neste ano, está sendo estendido para os funcionários masculinos. E um processo recente de redesenho transformou a versão "prenda" que ilustrava uma garrafa térmica (chamada Chimarrita) em uma gaúcha sobre um cavalo. Como um homem? Mais ou menos, diz Natalie:
— Via uma passividade muito grande, queria colocá-la em movimento, mas não na mesma posição. No desenho, ela puxa a rédea. Não o empina, mas tem o controle.
É o que fazem Carolina e Natalie quando é a economia que empina: buscam manter o controle.






