
O anúncio de um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos, Israel e Irã fez o preço do petróleo despencar para o patamar abaixo dos US$ 100. Mas a cotação do barril do tipo brent, principal referência global, não abandonou o nível dos US$ 90, ao menos até o final da manhã desta quarta-feira (8). Como se previa, o efeito da guerra sobre esse custo que determina vários outros não será diluído de forma rápida.
É consenso entre analistas que, na forma como foi obtido o cessar-fogo, o "vencedor" da guerra é o Irã. O principal indicador desse diagnóstico é a manutenção do controle do país sobre o Estreito de Ormuz. Há relatos de agências internacionais de que aumentou o tráfego pela passagem, mas deve levar tempo para liberar os cerca de 800 navios presos nas imediações desde o final de fevereiro.
— Todos ainda estão aguardando para ver o que acontecerá a seguir. Não é possível movimentar um grande número de navios por aqui com segurança. A realidade é que o Irã ainda controla esse comércio — disse à BBC Richard Meade, editor-chefe da Lloyd's List, publicação especializada em navegação marítima criada em 1734.
Segundo Meade, a passagem de navios pelo estreito ainda é negociada caso a caso com a Guarda Revolucionária Islâmica. Por isso, adverte que é preciso ter "expectativas moderadas" sobre a ritmo de retomada de alguma normalidade no Golfo Pérsico.
Niels Rasmussen, analista-chefe de transporte marítimo da Bimco, avalia que, se a trégua de duas semanas não for prorrogada em breve, dificilmente haverá grande entrada de navios no Golfo. Parte porque muitas embarcações já se reposicionaram em outros locais e parte porque há temor de que fiquem presos novamente.
— Mesmo que voltemos à normalidade após duas semanas, as exportações de petróleo serão afetadas por algum tempo, já que a produção precisa ser reiniciada em vários campos e os danos à infraestrutura precisam ser reparados — advertiu Rasmussen.
A consultoria Rystad, especializada em petróleo e gás estimou, há duas semanas, em US$ 25 bilhões o custo da recuperação das instalações petrolíferas atingidas por ataques no Golfo Pérsico. Após o cessar-fogo de duas semanas, reduziu sua previsão de preço médio do brent de US$ 97 para US$ 87 para 2026. O Irã anunciou – e, conforme relatos, já aplicou – um pedágio para passar por Ormuz, de US$ 2 milhões por navio. Manter essa cobrança estaria entre suas exigências para a trégua. Nesta quarta-feira (8), o governo de Omã, que tem "guarda compartilhada" do estreito, disse que não haverá pedágio.
O mercado financeiro reage com otimismo. Os futuros das bolsas dos EUA disparam até 3%, e no Brasil o dólar abriu em queda superior a 1%, para R$ 5,09. Mas analistas recomendam cautela.
— O cessar-fogo anunciado por Donald Trump reduz a pressão imediata sobre os ativos, mas está longe de eliminar o risco central que o mercado passou a precificar: a baixa previsibilidade de uma negociação sustentada por interesses estruturalmente incompatíveis. O ponto relevante é a capacidade de esse arranjo sobreviver a condicionantes que, neste momento, seguem desalinhadas — pondera Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos.




