
A venda do controle da Braskem, dona da maior parte do polo petroquímico de Triunfo, para a gestora de investimentos IG4 foi aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que é o regulador da concorrência. A decisão foi anunciada em nota da própria companhia petroquímica publicada depois do fechamento do mercado (veja a íntegra abaixo).
Ainda é preciso esperar 15 dias para que a decisão seja confirmada, depois a transação pode avançar para os próximos passos, como o fechamento financeiro e a transferência de ativos. A IG4 já avisou que, depois de cumpridas todas as obrigações legais e contratuais, pretende aplicar um "plano abrangente de turnaround", ou seja, uma grande reestruturação da Braskem, visando redução de custos.
Esse plano também contempla um novo papel para a Petrobras, que tem 36,1% do capital total e 47% das ações ordinárias da Braskem. Como vai deixar 4% desses papéis para a atual controladora, a Novonor (ex-Odebrecht), a IG4 vai ficar praticamente com o mesmo poder da estatal na companhia. Por isso, já afirmou que pretende tratar a sócia como "cocontroladora".
A Braskem está em situação delicada por fracassos de sucessivas tentativas de venda (leia mais sobre o imbroglio abaixo), alto endividamento, mercado em baixa e aumento da importação. A companhia enfrenta níveis de ociosidade muito elevados, em máximas históricas.
Quem é a nova controladora
Criada em 2016, a IG$ se apresenta como "uma das maiores gestoras de ativos independentes focada em situações especiais em mercados emergentes". Um dos fundadores mais conhecidos é Paulo Mattos, que foi diretor geral da GP Investimentos e vice-presidente de estratégia de negócios da Oi. Uma de suas especialidades é chamada de "market dislocations", ou seja, situações em que o preço do ativo está muito distante do considerado justo por condições anormais de mercado, como choques econômicos, pânico ou crises de liquidez. Exatamente a atual situação da Braskem.
A íntegra da nota
"São Paulo, 06 de março de 2026 - A Braskem S.A. (...), em continuidade ao Fato Relevante do dia 23 de dezembro de 2025, vem comunicar aos seus acionistas e ao mercado em geral que tomou conhecimento, pelo site do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), que a sua Superintendência Geral proferiu Despacho por meio do qual decidiu pela aprovação, sem restrições, do Ato de Concentração relativo à potencial operação de entrada de determinado Fundo de Investimento em Participações ("FIP"), sob a consultoria especializada da IG4 Sol Ltda. (parte do Grupo IG4), como acionista direto e/ou indireto da Companhia, assumindo a participação atualmente detida pela Novonor S.A. – Em Recuperação Judicial ("Novonor"), em decorrência da aquisição, pelo Shine I Fundo de Investimento em Direitos Creditórios de Responsabilidade Limitada ("Shine I FIDC"), de créditos existentes contra empresas do Grupo Novonor, atualmente garantidos por alienação fiduciária de ações da Braskem (“Operação”). A partir da publicação do referido Despacho se dará início ao prazo de 15 dias para eventual avocação do Tribunal do CADE. Outras informações que venham a ser recebidas pela Companhia da Novonor, do FIP ou do Shine I FIDC sobre a potencial Operação, inclusive relacionadas às condições precedentes ao seu fechamento, serão informadas pela Braskem ao mercado, observadas as legislações aplicáveis."
O imbróglio da Braskem
A Braskem está à venda desde 2018. A companhia é controlada pela Novonor (ex-Odebrecht), que entrou em recuperação judicial (RJ) depois da operação Lava-Jato. A empresa privada tem 38,3% do capital total da Braskem e 50,1% das ações ordinárias, enquanto a Petrobras tem 36,1% do capital social e 47% das ordinárias. As ações da Braskem haviam sido dadas como garantia de pagamento da Novonor a seus bancos credores na RJ.
O primeiro ensaio, em 2019, foi uma tentativa de evitar a RJ da então Odebrecht, mas fracassou, por falta de transparência na avaliação dos passivos por danos na mineração de sal-gema em Maceió (AL). Não por acaso, o pedido veio 15 dias depois.
Ainda houve tentativas de venda à estatal de petróleo de Abu Dhabi, a Adnoc, e ao fundo Petroquímica Verde, do polêmico empresário Nelson Tanure – agora envolvido no escândalo Master –, que também não avançaram.




