
Engenheiro mecânico, David Zylbersztajn é doutor em economia da energia pelo Institut d'Economie et de Politique de L'Energie, de Grenoble (França). Foi o primeiro diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e ficou no cargo de 1998 a 2001. Em 1999, liderou a quebra do monopólio da Petrobras na exploração e organizou o primeiro leilão de áreas aberto à iniciativa privada. Diz que a política de preços da estatal é definida por seu acionista controlador, a União, portanto o governo de plantão. Embora admita que haveria impacto inflacionário, avalia que o mais correto seria repassar toda a alta do barril aos preços dos combustíveis. E projeta que isso poderia fazer o governo "nadar de braçada nas contas públicas".
Qual é o tamanho desta crise, comparada às anteriores?
Todas as outras foram crises de oferta, houve ruptura de fornecimento. Desta vez, a situação é contrária às demais. Existe sobra de petróleo, porque a oferta cresceu mais do que a demanda. O problema hoje é a logística. Existe estoque local, mas não há condições logísticas para distribuição. É uma situação nova com a qual estamos lidando, sem saber ao certo as consequências e onde pode chegar. Temos uma crise de petróleo na qual existe muito produto, mas o mundo não consegue fazer chegar aos centros de consumo.
Há chance de a guerra acabar?
Espero que pare logo, porque nenhum país está ganhando. O primeiro prejudicado é o Irã, que exporta 90% do seu petróleo para a China. Que é a segunda mais afetada, por importar do Oriente Médio mais da metade da sua dependência. Deve estar, de alguma maneira, fazendo pressão diplomática para que o conflito se encerre. Os países que mais dependem do fornecimento da região são China Índia, Japão e Coreia, nessa ordem. A China tem certa ascendência diplomática sobre o Irã.
A liberação de estoques não vai resolver, porque, como qualquer estoque, tem fim se não for reposto.
O problema logístico ajuda a explicar por que a liberação de estoques estratégicos não aliviou muito?
O países sempre trabalharam com esses estoques, cujo nível é informado publicamente, influindo na formação do preço internacional. São usados em caso de guerra, de ruptura de fornecimento, como agora. Mas é um band-aid. A liberação (de estoques) não vai resolver, porque, como qualquer estoque, tem fim se não for reposto. A capacidade militar do Irã não é inesgotável. Ou, de repente, os americanos decidam parar, dizer 'fizemos estrago suficiente, interrompemos a potencial escalada militar e nuclear'. Podem terminar em 24 horas, se quiserem, e adotar mais sanções para sufocar o Irã de outra forma.
O aceno de fim da guerra fez o petróleo baixar, mas, trégua, voltou a subir. Como fica o preço?
Ninguém sabe, mas é importante observar que há parte significativa de especulação. Os contratos futuros são negociados em bolsa, boa parte não representa negócios físicos com petróleo. Isso facilita que, de um dia para o outro, a cotação passe de US$ 80 para US$ 120, depois volte. Não existe correlação na compra e venda física nessa dimensão. Mas faz muita gente ganhar dinheiro, porque compra a US$ 80 e vende a US$ 120. Não sei quem é, nem onde está, mas é óbvio que isso aconteceu. Existe uma questão física de oferta e demanda, mas ainda não há rupturas significativas de curto e médio prazo que justifiquem isso.
Será necessário acompanhar a reação do mercado para ver se vai funcionar.
A ameaça do Irã de levar o barril a US$ 200 é crível?
Possível, é, mas é bastante improvável. É de uma arrogância absurda. A não ser que exploda as refinarias da Arábia Saudita, do Qatar, os terminais de gás do Omã. Aí poderia chegar. Agora, não sei se há capacidade para isso e, mesmo tendo, se fariam isso. O Irã exporta 90% do seu petróleo para a China. Seria suicídio. É fanfarronice, como as do presidente americano.
As medidas anunciadas pelo governo brasileiros são adequadas?
Primeiro, ainda é preciso ver se de fato haverá a compensação dos R$ 30 bilhões (caso sejam mantidas por 12 meses) em isenção de impostos e subvenções. Depois, se vai ter êxito em repassar o alívio tributário para o bolso do consumidor. Será necessário acompanhar a reação do mercado para ver se vai funcionar. Quem vai pagar a conta são as empresas de petróleo, que podem perder mercado com o imposto sobre a exportação.
O custo de produção no Brasil não é baixo?
Na maior parte, é relativamente baixo, o pré-sal tem uma produção espetacular. O problema é que as contas são feitas a partir desse custo. Tem de ver como será a operação. O Brasil exporta uma quantidade razoável de petróleo. Embora perca um pouco porque o real se valorizou, tem ganho líquido.
Seria possível até ter superávit primário, porque o governo arrecadaria algo como R$ 40 bilhões em impostos diretos e indiretos, mais R$ 10 bilhões em dividendos.
O que ocorreria se a Petrobras repassasse todo o aumento?
Se o petróleo ficasse em US$ 100 e a Petrobras seguisse o preço internacional, o governo acabaria com o déficit. Seria possível até ter superávit primário, porque o governo arrecadaria algo como R$ 40 bilhões em impostos diretos e indiretos, mais R$ 10 bilhões em dividendos. O outro lado é a inflação, porque a gasolina pesa no índice e o diesel impacta o custo do transporte e, indiretamente, o de alimentos. Mas o governo nadaria de braçada nas contas públicas. Se eu tivesse 35% do capital da empresa (fatia total da União nas ações da estatal), iria bater palmas se distribuísse dividendos. No passado, havia muitas críticas de governos. Com o tempo, perceberam o ganho, e ninguém mais reclama.
Por quê?
Ajuda muito o Tesouro. Na medida possível, a Petrobras deveria acompanhar o preço internacional, mas é óbvio que há soluços momentâneos. Quando acabar a guerra, minha percepção é que o petróleo vai ficar mais barato do que estava antes. A expectativa, antes dessa confusão toda, é de que a oferta cresceria de duas a três vezes mais do que o aumento na demanda, segundo a Agência Internacional da Energia. A tendência de queda no preço era tão clara que a Petrobras começava a rever seu plano de negócio por um barril mais barato do que o previsto.
Quando as seguradoras tiverem certeza de que não há risco de um petroleiro de US$ 300 milhões ser atingido, volta a normalidade.
Pode cair abaixo de US$ 60, como chegou a ocorrer antes da guerra?
O que vai determinar a volta da circulação no Estreito de Ormuz é a liberação dos seguros. Não é o Trump. Não adianta dizer 'vou garantir'. Quando as seguradoras tiverem certeza de que não há risco de um petroleiro de US$ 300 milhões ser atingido, volta a normalidade. Essa decisão está nas mãos da City de Londres (seguradoras marítimas se concentram no Reino Unido por seu passado de poderio naval). Essa decisão não está na Casa Branca, porque ninguém vai botar um navio nesse preço sem seguro.
Com Ormuz fechado, não é só petróleo que não passa?
Passa boa parte do nitrogenado sintético do mundo, o dque afeta a produção de fertilizantes, que impacta a produção de alimentos. E quase todo o enxofre enxofre do mundo. É matéria-prima para o ácido sulfúrico usado na mineração de cobre e cobalto. Sem cobre e cobalto não se faz bateria, carro elétrico, painel solar, nada em microeletrônica. E ainda boa parte do gás que vai para Taiwan, que depende disso para produzir eletricidade. A TSMA (líder global no segmento) produz a maior parte dos chips e consome 10% da energia de Taiwan. Se houver problema de eletricidade, há risco para a produção de chips. É uma situação que transborda a questão do petróleo.






