
Enquanto no discurso o presidente Donald Trump ataca as energias limpas, na prática as está incentivando. Como assim? Com o petróleo acima de US$ 100 por mais de 20 dias e sem perspectiva real de que volte a US$ 60 no curto prazo, o alto custo dos combustíveis começa a provocar um efeito colateral aparentemente não previsto. Sempre que o petróleo sobe muito e por muito tempo, começa a viabilizar alternativas.
Não é só torcida (embora também seja): dados recentes da Agência Internacional de Energia (IEA) indicam que cada ciclo de alta relevante no petróleo tende elevar investimentos em energias renováveis e eficiência energética. Depois do choque de 2022, o investimento global em energia limpa superou US$ 1,7 trilhão em 2023, com energia solar e eólica puxando o crescimento.
Os rumos do conflito iniciado por Estados Unidos e Israel derrubaram a tese de que o Oriente Médio havia perdido relevância na geopolítica do petróleo depois que os americanos se transformaram no maior produtor do mundo. Diante da reação inesperada do Irã, que atacou instalações petrolíferas do Golfo Pérsico e provocou prejuízos de US$ 25 bilhões, há um objetivo novo na praça: a busca da segurança energética.
Essa busca pode devolver à agenda da transição energética a urgência que havia perdido, exatamente depois da eleição de Trump. Nesse caso, o Brasil pode se beneficiar tanto por ser referência nessa área quanto por ter se tornado um produtor relevante de petróleo nos últimos anos.
Em entrevista à coluna durante sua passagem pelo Rio Grande do Sul, o vice-presidente executivo global de multiclientes da norueguesa TGS, David Hajovsky, disse à coluna que, quando ocorre uma situação como a atual no Oriente Médio, o mercado altera o perfil de risco, e abre oportunidades para países como o Brasil, com risco geopolítico muito baixo, possam atrair investimento internacional:
— A discussão sobre segurança energética se reforça. E assim, o Brasil, como um porto seguro para investimentos, que tem muito potencial geológico, regime regulatório bem estabelecido e uma empresa petrolífera nacional muito consolidada, tem todos os ingredientes para atrair investimentos internacionais e tentar ajudar a descobrir mais recursos e trazer mais recursos para o mercado.


