
Uma guerra com forte impacto econômico sempre deixa agentes do mercado nervosos. E mais ainda em países à beira de uma decisão crucial – o início do ciclo de baixa no juro básico no Brasil. Na sexta-feira (13), houve forte alta dos juros futuros, um mercado que é especulativo, como todos, mas também provoca efeitos reais, por referenciar taxas de longo prazo, como as destinadas aos financiamentos de projetos de expansão de empresas.
Nesta segunda (16), ainda antes que o mercado abrisse, o Tesouro Nacional fez uma intervenção no mercado de títulos públicos. Cancelou leilões de venda previstos para esta semana de títulos públicos prefixados e indexados à inflação e abriu oportunidade de recompra. Anunciou intenção de absorver até 25 milhões de papéis prefixados e vender 10% desse volume e concretizou 70% da recompra, por cerca de R$ 12 bilhões.
Para o mercado, foi uma intervenção bem-sucedida e até bem-vinda, conforme Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de macro e dívida pública da Warren Investimentos. Ele detalha que esse mercado tem relação inversa entre taxa de juro e preço:
— Quando a taxa sobe, o preço cai. Por isso, a recompra pelo Tesouro não traz prejuízo. Como os juros subiram, o Tesouro comprou até mais barato.
Havia uma guerra com viés inflacionário, dados de inflação e de atividade acima dos esperados. Isso já seria o suficiente para refazer as apostas sobre a trajetória da Selic. E, na sexta-feira, o mercado se estressou com... o final de semana.
— Ninguém quer ficar posicionado quando há muita incerteza. Tinha muita gente aplicada, apostando em queda forte no juro. Viram que não iria acontecer daquela forma e passaram a acionar o stop loss — relata Vital.
"Stop loss" (inglês para "frear perda") é um mecanismo automático que dispara vendas a qualquer preço, ou seja, mesmo com forte prejuízo para o investidor. Serve para evitar maiores ainda, por isso se chama assim. Com isso, o juro subiu 55 a 60 pontos básicos, o que é muito para um só dia. Pior, não havia ninguém disposto a comprar.
— Surgiu uma enxurrada de venda, mas ninguém comprava. Por isso, nesta segunda, antes da abertura, o Tesouro avisou que entraria para absorver o excesso de venda. Não foi um problema que tenha causado, mas impede que o mercado fique disfuncional. E como vendeu também, neutraliza o efeito no caixa. Quando terminou o leilão, o mercado voltou equilibrado.
Conforme Vital, no passado recente o Tesouro só fez intervenções semelhantes em dezembro de 2024, quando houve uma disparada do dólar, na pandemia e na greve dos caminhoneiros de 2018.


