
Entre as revelações que se seguiram à prisão de Daniel Vorcaro, estão detalhes do envolvimento de altos funcionários do Banco Central (BC). A nova fase da operação Compliance Zero levou ao afastamento definitivo de Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, ambos funcionários de carreira que já haviam sido suspensos com base em informações da sindicância interna da instituição. Deveriam garantir a estabilidade do mercado financeiro.
Souza foi diretor de Fiscalização na gestão de Roberto Campos Neto, entre 2017 e julho de 2023, quando foi substituído por Ailton de Aquino. A compra do banco Máxima por Vorcaro foi aprovada no BC em 2019. A diretoria é a mais alta hierarquia abaixo da presidência, com direito a cadeira no Comitê de Política Monetária (Copom). Belline comandava o Departamento de Supervisão Bancária. Agora, por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, ambos terão de usar tornozeleira eletrônica.

Segundo as conclusões da PF citadas na decisão de Mendonça, ambos atuavam como "empregados/consultores" de Vorcaro. Repassavam informações, revisavam documentos que seriam entregues ao BC e orientavam como Vorcaro deveria se comportar em reunião com Campos Neto.
Em um dos trechos, o relato da PF citado por Mendonça aponta "outro forte indício de que Vorcaro corrompia Paulo Sérgio" . Trata-se de "viagem que (...) faria aos parques de diversão localizados em Orlando". O texto prossegue: "Vorcaro chega a comentar em mensagem reproduzida na fl. 54 que precisaria "arrumar guia pra essas pessoas".

A PF aponta "indícios de que Paulo Sérgio (o ex-diretor) tenha recebido vantagens indevidas (...) por meio de mecanismos indiretos e estruturas financeiras destinadas a ocultar a natureza ilícita dos pagamentos". Em outra mensagem reproduzida, o cunhado do ex-dono do Master, Fabiano Zettel, escreve: "Hoje tem que pagar a primeira do Belline, ok?”. "Ok" é a resposta de Vorcaro.
Conforme a investigação, o ex-dono do Master "coordenou a articulação de mecanismos destinados à formalização de contratos simulados de prestação de serviços, por intermédio de empresa de consultoria, utilizados para justificar transferências financeiras efetuadas em favor dos servidores públicos vinculados ao Banco Central, à título de contraprestação pela 'assessoria' privada que forneciam".
Campos Neto havia sido convidado para um depoimento à CPI do Crime Organizado na terça-feira (3), mas obteve habeas corpus do STF para prestar informações por escrito. Com os novos detalhes, é possível que seja pressionado a depor de forma presencial. O fato de Neves de Souza ter sido diretor durante sua gestão não significa cumplicidade do então presidente do BC, mas é no mínimo constrangedor, dado que o Master só foi liquidado na gestão seguinte.




