
Quando, segundo o próprio, Donald Trump, os Estados Unidos "aceleraram" Israel para atacar conjuntamente o Irã, havia quatro motivos declarados: destruir mísseis, aniquilar a marinha, impedir o desenvolvimento de armas nucleares e impedir que o regime armasse, financiasse ou dirigisse "exércitos terroristas" fora de suas fronteiras.
Nenhum desses objetivos parece ter sido alcançado, mas no final da tarde de segunda-feira (9), Trump pronunciou uma frase estranha até em inglês – "I think the war is very complete, pretty much". A interpretação foi de que a guerra estaria quase concluída. Ávido por uma trégua nos preços, o mercado comprou a tese, na segunda e na terça-feira (11). No momento da declaração de Trump, o petróleo acumulava alta de quase 50% em duas semanas de ataques.
Era um cenário quase impensável. O petróleo não impacta apenas o custo de gasolina e diesel. Vai do gás natural ao combustível de aviação, que já eleva o preço das passagens internacionais. Para além do uso energético, a matéria-prima está na base de quase todas as embalagens – com exceção das que já migraram para soluções sustentáveis – passando por carros e eletrodomésticos, produtos de limpeza e cosméticos.
Nos EUA, não existe uma estatal do petróleo com histórico de frear a volatilidade do mercado, como no Brasil. Lá, a alta da matéria-prima passa para os postos no dia seguinte. Por isso, já ocorreram protestos de caminhoneiros. A dor no bolso dos americanos os divide entre apoio patriótico e crítica consumidora. Nos EUA, a inflação já sobe.
Em menos de nove meses, Trump tem eleições para o Congresso pela frente, as chamadas "midterms". Sua popularidade já havia sido chacoalhada pelo fracasso do tarifaço. Se não fez os preços explodirem, como se temia, não permitiu que baixassem. E agora o fantasma inflacionário reaparece soprado pelos preços dos combustíveis.
O reajuste imediato não ocorre só nos EUA, também em outros países. No Brasil já foi assim, até que a greve dos caminhoneiros de 2018 derrubou o sistema que repassava o aumento do petróleo às bombas em poucos dias. O mercado escolheu ouvir Trump porque a situação era insustentável para todos. Com a passagem fechada no Estreito de Ormuz, países do Oriente Médio foram obrigados a reduzir a produção de petróleo por não ter como escoá-la.
Nesta quarta-feira (11), o cenário de fim de guerra segue distante. Há relatos de que um navio britânico foi atingido no Estreito de Ormuz e de embarcações do Irã destruídas ao tentar espalhar minas no Estreito de Ormuz. Sem liberação da produção e do tráfego, a inflação pode devorar as chances eleitorais de Trump. Pela manhã, a cotação do barril segue em torno de US$ 90, em estabilidade estressada, ainda 26% acima do nível pré-ataques.
Com sua capacidade inesgotável para a farsa, o atual ocupante da Casa Branca pode dizer que atingiu seus objetivos e acabar com a guerra. Caso o conflito se estenda com novos picos na cotação do petróleo, pode acabar com a chance de Trump de vencer as midterms. E arrastar todo o planeta que apenas começava a se recuperar da inflação provocada pela pandemia de covid-19 para outra viagem à estratosfera de preços.





