
Agora que o ex-dono do Master já está acomodado na Superintendência da Polícia Federal (PF) e assinou termo de confidencialidade – início oficial do processo de colaboração premiada –, circula todo tipo de especulação. Será uma delação "séria", não meramente cosmética. Ou será "seletiva", só vai comprometer quem o ex-banqueiro quiser.
O fato de que o acordo envolver duas instituições – a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR) – alimenta outra tese: a de que vai "poupar altas autoridades da República", atendendo a conveniências de parte a parte. Quem aponta esse risco vê como base a relação do titular da PGR, Paulo Gonet, com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) como Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes.
Como a coluna já destacou, a essa altura a Polícia Federal (PF) já tem fartos indícios para responsabilizar cúmplices e favorecedores. Para conquistar um acordo que se aproxime da ambição do investigado – redução de pena de até dois terços do total –, Vorcaro terá de entregar informações relevantes. Diante de tudo o que já se sabe, não conseguirá esconder um elefante – ou uma manada? – embaixo do tapete.
Outro indicativo da dificuldade de diluir o peso das potenciais revelações de Vorcaro é a velocidade com que o processo foi estabelecido: menos de uma semana depois da decisão do STF que manteve a prisão do ex-banqueiro. A justificativa que circula para tamanha pressa é a de que seu cunhado e cúmplice, o pastor da Lagoinha Fabiano Zettel, estava disputando a primazia da delação. Quem chega primeiro costuma ter mais benevolência nos casos de colaboração.
Assim como outros "chefes de organização criminosa" que já delataram, como Marcelo Odebrecht, Vorcaro não precisa ter alguém acima para que sua colaboração seja valiosa. Pode ajudar a desvendar a transformação de R$ 2 milhões em R$ 200 milhões não por passe de mágica, mas por passagem em fundos. Pode apontar agentes públicos que se serviram dos cargos para obter vantagens.
E precisa, muito, contribuir para recuperar ao menos parte dos rombos que provocou, dos cerca de R$ 55 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), aos entre R$ 5 bilhões e R$ 15 bilhões ao BRB, que agora enfrenta risco existencial, e a soma ainda imprecisa, ainda que também bilionária, das perdas impostas a pelo menos 18 fundos de previdência de servidores públicos.




