O bombardeio da Guarda Revolucionária Iraniana a um petroleiro no Golfo Pérsico voltou a acentuar o nó no tráfego mundial de petróleo e outras mercadorias provocado pela guerra iniciada por Estados Unidos e Israel. O ataque contribuiu para provocar novo aumento no preço do petróleo, que no final da manhã de quinta-feira (5) sobe 3,32%, para US$ 84,11.
O Irã controla o Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico (ao norte) ao de Omã (ao sul). O mapa acima (é possível ver detalhes clicando na imagem) mostra a concentração de navios nos dois extremos, e quase nenhum tráfego na "curva" de Ormuz. É efeito prático do fechamento da passagem. Mas, afinal, como se "fecha" um canal marítimo? O certo é que não há uma comporta ou qualquer outro tipo de barreira física, como correntes ou mesmo alinhamento de navios.
A impossibilidade de navegação é definida por ameaças ou ataques diretos a embarcações que tentam passar. Na segunda-feira (2), a Guarda Revolucionária do Irã anunciou a decisão de impedir o tráfego de petroleiros. E um de seus líderes, o general Sardar Jabbari, detalhou em publicação no canal de Telegram da Guarda iraniana:
— Incendiaremos qualquer navio que tente passar pelo Estreito de Ormuz. Também atacaremos os oleodutos e não permitiremos que nem uma única gota de petróleo saia da região. O preço do petróleo alcançará US$ 200 nos próximos dias.
Não há precedente de fechamento total de Ormuz, mas atacar navios foi uma tática já usada pelo Houti no Mar Vermelho, ao leste do território da Arábia Saudita (Ormuz fica a leste). Esse grupo do Iêmen também é financiado pelo Irã.
Para que o "fechamento" tivesse o efeito desejado, não teria sido necessário atingir um navio. O aumento no risco já fez disparar o preço do seguro das embarcações. É por isso que as promessas de "escolta" ou de "seguro acessível" feitas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, não resolvem o impasse.
Os preços dos seguros para navios equivaliam a cerca de 0,25% do custo de reposição de uma embarcação antes da guerra. A estimativa é de que tenham subido 50%, para ao redor de 0,5%, disse ao Financial Times Dylan Mortimer, líder de seguros de casco marítimo para guerra da corretora Marsh, do Reino Unido, que concentra tradicionais empresas do segmento.
Isso inviabiliza a operação na prática, por abalar a lucratividade do transporte marítimo. Esse impacto não afeta só o petróleo: vai de fertilizantes a remédios, passando por exportações do Rio Grande do Sul a países do Oriente Médio.
O que é o Estreito de Ormuz?
Localizado entre o Irã, ao norte, e Omã, ao sul, liga o Golfo Pérsico (ao norte) ao Golfo de Omã (ao sul). Em sua parte mais afunilada, tem 39 quilômetros de largura. Não parece tão "estreito", mas a os gigantes navios petroleiros exigem grande profundidade, de até 30 metros. Por isso, só existem duas faixas de navegação, com três quilômetros de largura – uma para cada sentido da navegação.
Por que Irã tem o controle?
Porque boa parte do estreito fica na costa do país. O Irã comanda a parte norte do estreito, enquanto Omã e os Emirados Árabes são responsáveis pela parte sul, pelo mesmo motivo. As faixas por onde passam os navios comerciais são consideradas águas internacionais, segundo o direito internacional marítimo definido pela ONU. No papel, o Irã não poderia bloquear a passagem. Na prática, como os corredores de navegação são estreitos, deixam as embarcações na mira de mísseis e drones.



