
Foi preciso esperar oito anos, mas Marciano Testa, fundador do Agibank, conseguiu abrir capital na bolsa de Nova York. Tentou em 2018, conseguiu nesta semana e já acompanha a cotação das ações em Wall Street, onde poucas empresas se estabelecem, menos ainda brasileiras.
— Tenho um lema de vida: é muito difícil superar alguém que nunca desiste — afirma hoje, depois de ter começado a ajudar a sustentar a casa aos oito anos.
Porque era tão importante abrir capital em Nova York?
Tenho lema de vida: é muito difícil superar alguém que nunca desiste. Sempre uso quando me reúno com os times. É o que marca a trajetória do Agibank, desde a startup fundada no Sul até obter a primeira licença, em 2011, tudo foi muito difícil. Fazer um IPO é um processo supercomplexo, tem muitas coisas que se pode controlar, mas também se fica exposto a inúmeras variáveis sobre as quais não tem controle. Ter a persistência, nesse processo ou qualquer outro, é uma fortaleza importante para qualquer empreendedor. Sempre haverá barreiras, é preciso ter a capacidade de nunca desistir e enfrentar obstáculos.
Tinha de ser em Nova York?
Acessar o mercado americano é extremamente estratégico para uma companhia que quer continuar crescendo, investindo. Mas é para um grupo muito seleto, que exige ter determinadas características de tamanho, crescimento, governança. Tem de atender a todos esses requisitos. É essencial ter um negócio organizado e alto nível de governança. Ter ações na bolsa de Nova York dá acesso ao pool de capitais mais fundo do mundo. É uma estrutura que agora o Agibank tem possibilidade de acessar, tem os maiores fundos de equity (de compra de fatias de empresas com visão de longo prazo). E fica um canal aberto para outras operações, o mais breve possível. Depois, muda o conceito da empresa, que passou por um forte escrutínio para acessar o mercado americano.
Quis mudar as condições em que nasci. A infância sempre foi muito feliz em família, mas desconfortável com a situação econômica
Como foi começar a trabalhar aos oito anos e, depois, bater o sino da Nyse?
Nasci em uma família com as mesmas características das que hoje atendemos no Agibank. Meus pais tinham renda pouco acima de um salário mínimo cada e tiveram seis filhos. A infância teve alguns desafios, como muitas famílias brasileiras. Como era comum nas cidades do interior do RS, as crianças buscavam algum serviço para complementar a renda dos pais. Saí de casa aos 14 anos para ganhar a vida. Comecei a empreender informalmente muito cedo. Sempre via alternativas para gerar renda. Aos 17, comecei a empreender formalmente, para poder de fato conseguir realizar sonhos. Quis mudar as condições em que nasci. A infância sempre foi muito feliz em família, mas desconfortável com a situação econômica. Tenho orgulho de ter 6 milhões de clientes ativos e 5,5 mil colaboradores que ajudam a transformar a vida dos clientes e suas próprias vidas.
Foi por isso que fez questão de levar muitos funcionários?
Acredito muito no alinhamento de longo prazo na companhia. Temos 700 sócios, dos quais 120 mais relevantes em termos de participação. Todos vieram para Nova York para celebrar esse marco importante. É um reconhecimento do trabalho deles, do nosso. Fiz estudo de casos de partnership (com participação acionária de empregados), entendi que é o melhor caminho para atrair pessoas de alto talento. Admiro muito a cultura de dono.
É um capital novo relevante, ao redor de R$ 1,5 bilhão. Temos planos ambiciosos com o modelo híbrido que chamamos de smart hubs
Qual é o plano para os recursos?
É um capital novo relevante, ao redor de R$ 1,5 bilhão. Temos planos ambiciosos com o modelo híbrido que chamamos de smart hubs. Estamos em 750 municípios, todos os que têm mais de 100 mil habitantes. Há uma mudança nos bancos de varejo, com fechamento massivo de agências bancárias tradicionais, que tem custo e estrutura ineficientes para atender o segmento com salário de até US$ 400 (cerca de R$ 2 mil). Já mapeamos mais 350 cidades onde queremos estar, de 50 mil, 30 mil e 15 mil habitantes onde não existe mais banco presente. A operações são 100% digitais, cashless (pagamento que dispensa cédulas ou moedas) e paperless (redução de uso de papel), mas são pontos de assessoramento. Ajudamos a baixar o aplicativo, navegar, fazer operações mais complexas.
O foco segue nesse segmento?
Por ora, sim. Mas não descartamos fazer M&As (fusões e aquisições) tanto para ganhar sinergia, mais escala, quanto de algum negócio complementar.
O adulto que tocou o sino pensou na criança de oito anos que foi trabalhar?
Foi uma emoção muito grande. Simboliza que todo brasileiro tem oportunidade de se colocar foco, muito trabalho e muita ética. Também pensei muito na minha família, que foi parceira nessa jornada. Mudei de cidade várias vezes por necessidade do negócio. Mas isso sacrifica um pouco a família, que agora se sente recompensada. Também tive a sensação de poder fazer parte de um seleto e muito pequeno grupo que consegue acessar essa plataforma para atrair capital e transformar o mercado financeiro no Brasil para pessoas que muitas vezes são invisíveis ou deixadas para trás tanto pelo sistema tradicional quanto pelo só digital. Se eu consegui, outros conseguem.
Quando participo das mentorias, sempre digo aos jovens de baixa renda que o que importa é onde está mirando o sonho. O que menos importa é de onde vem
O apoio na criação e manutenção do Instituto Caldeira tem relação com essa trajetória?
É algo que penso como seria se tivesse tido a possibilidade de acessar um ecossistema como é hoje o Caldeira, que faz mentoria para empreendedores, tem programas de apoio para startups. Minha curva de aprendizado teria sido mais curta. Aprendi por mim mesmo, com erros e acertos. Quando participo das mentorias, sempre digo aos jovens de baixa renda que o que importa é onde está mirando o sonho. O que menos importa é de onde vem. Espero que a experiência que tive possa se refletir no aprendizado deles. É um projeto lindo, que conseguiu o engajamento de toda a comunidade do RS e do Brasil, agora também com conexões internacionais. Queremos ajudar a aplicar o que tem de tendências ao redor do mundo, seja para empresas maduras ou para alguém que é como eu há 25 anos.



