
Um dos nomes mais conhecidos da análise econômica no Brasil, André Perfeito passou a atuar como economista-chefe e sócio da Garantia Capital, com atuação em fusões e aquisições entre empresas. Nesse papel, vem se inquietando com o estrago que o juro alto provoca nas empresas que se financiaram com taxa Selic a 2% ao ano e hoje convivem com juro básico de 15%. Aponta, como um dos responsáveis, o modelo usado pelos economistas para fazer projeções. Avalia que mudanças microeconômicas deveriam ter alterado os cálculos usados para projetar indicadores macroeconômicos como inflação, juro e câmbio.
O Congresso aprovou medidas "fura-teto" depois de fazer discurso do equilíbrio fiscal. A preocupação com as contas públicas ficou no recesso?
Desde o governo anterior, quando se inaugurou uma relação mais ativa do parlamento na execução do orçamento, a capacidade do governo federal de administrar suas próprias contas caiu vários degraus de liberdade. O Executivo não tem mais capacidade plena sobre o orçamento. E o maior risco dessa situação não é nem quantitativo, mas qualitativo. Retira do gasto público a eficiência que é um dos objetivos do governo. Existem períodos em que tem de gastar mais. Mas esse gasto está passando longe de qualquer discussão estratégica. O que essa decisão da Câmara gera é um sentimento de ojeriza. Vai ser uma festa danada, feita com o orçamento. A ação de (Flávio) Dino (ministro do STF) tenta dar um freio, trazer alguma perspectiva de debater melhor esse aspecto.
O custo estimado de R$ 1 bilhão pesa em um país com situação fiscal frágil?
Não vejo o problema fiscal do Brasil como o fim do mundo que alguns colegas colocam, mas também não está tudo bem. É preocupante. A tese 'mais Brasil, menos Brasília' foi feita pelo ex-ministro (Paulo) Guedes. Veio esse orçamento municipalista. Tinha boas intenções, mas abriu as portas do inferno. O Congresso está aprovando medidas ao arrepio de qualquer sentimento da opinião publica. É tenebroso.
Não é o real que está forte, é o dólar que está fraco. Vários outros emergentes estão sendo beneficiados por esse efeitos.
Nesse cenário preocupante, como câmbio e bolsa têm dias de quase euforia?
Não é o real que está forte, é o dólar que está fraco, a despeito da situação da economia brasileira. Vários outros emergentes estão sendo beneficiados por esse efeitos. Dá para ver que não é só com a gente. Talvez algo específico ligado ao Brasil seja o fortalecimento das commodities (matérias-primas básicas que o país produz, como minério de ferro). Se há uma discussão sobre o dólar ter deixado de ser o safe haven (paraíso seguro), os investidores se voltam para o básico. As commodities metálicas são favorecidas, ouro e prata nem se fala. A bolsa brasileira é muito sensível a isso, porque é muito concentrada em Vale e Petrobras. Quando um investidor em Londres, Nova York ou Frankfurt tem de decidir alocação, vai atrás dessas proxies (representantes) de commodities. A bolsa subiu muito mais ainda está barata. Isso faz a bolsa e o dólar andarem ao arrepio das questões domésticas, particularmente fiscais.
Vamos ao corte de juro com essa ambiguidade?
Por mais que o BC resista ao corte de juro, ninguém imagina que não vá cortar, mesmo que a taxa de desemprego não pare de cair e a demanda esteja firme ainda. O mercado de trabalho está reagindo mais a aspectos da microeconomia do que da macro. Depois que o país criou novas formas de legislação trabalhista, que vão ao trabalho por aplicativo ao autoemprego, há uma situação em que a taxa de desemprego tende a ficar baixa. A renda não depende mais tanto da formalização das empresas. Temos uma taxa de juro real (descontada a inflação) altíssima, sem qualquer reação no mercado de trabalho. Há um perigo aqui.
Se a demanda começar a cair por desemprego em alta, há risco de colapsar os balanços por dentro.
Qual?
Há preocupação com empresas brasileiras que fizeram dívidas quando o juro estava em 2% ao ano (de agosto de 2020 a março de 2021), agora está em 15%. Isso faz com que boa parte do resultado financeiro das empresas esteja indo para pagar juro. Se a demanda começar a cair por desemprego em alta, há risco de colapsar os balanços por dentro. Ainda bem que o emprego não está reagindo dessa forma.
Por quê?
Hoje, trabalho com M&A (mergers and acquisitions em inglês, fusões e aquisições em português). Atuamos com muitas empresas, e esse problema aparece o tempo todo. O juro está matando os balanços por dentro. Isso está ocorrendo até com grandes empresas, imagina as médias. Se a demanda diminuir, esse problema ficará ainda mais sério. Estou preocupado com o balanço das empresas, isso chama a atenção. E se espera que a Selic reduza o emprego, mas isso não vai acontecer.
A questão é que, apesar de o desemprego estar no menor nível da série histórica, a inflação não está explodindo.
Qual é o problema?
Há várias formas de modelar (projetar) inflação. Em tese, quando aumenta a ocupação de mão de obra, aumenta a demanda e, ao mesmo tempo, o custo da produção, que vai entrar na formação dos preços. A questão é que, apesar de o desemprego estar no menor nível da série histórica, a inflação não está explodindo. O BC está segurando a economia (com juro alto) no máximo da sua capacidade, e nada acontece. Esse é o problema do sistema de meta de inflação, que é muito baseado nas expectativas de inflação. O que o mercado faz, de forma correta, dentro do modelo, é projetar que o juro não pode baixar muito porque a inflação vai ficar acima da meta. Os modelos estão impondo essa dureza. Na verdade, é possível baixar o juro, a inflação não vai subir. O sistema de metas impõe discricionariedade. Tem de ter juízo, fazer pergunta. Existem outros componentes ajudando a baixar a inflação. Agora se fala em cortar juro porque está relativamente sob controle. Na primeira escorregada, o mercado vai dizer 'tá vendo?'.
O sistema de metas tem problema?
Não vamos jogar fora o bebê com a água do banho. Não é um sistema errado em si. A questão é que seguimos usando parâmetros que mudaram. O mercado de trabalho não reage mais ao juro. O dólar não vai continuar caindo só porque o juro está alto. O que é importante é que, se houve um choque, tem de incorporar no modelo.
Não tem componente fiscal no juro alto?
Tem. Se o governo está rodando déficit, é como se fizesse emissão de dinheiro. Vai ter de financiar, e quando tem aumento de oferta de títulos, o preço cai, o que exige juro mais alto. Mas o prêmio (custo extra) do Brasil é exagerado.


