
Pela primeira vez desde o estouro do escândalo do banco Master, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, detalhou publicamente o cronograma do processo que levou à liquidação extrajudicial e da abertura de inquérito para investigar fraudes. A falsificação de dados foi identificada em março de 2025, afirmou. Galípolo falou em evento da Associação Brasileira de Bancos (ABBC) em São Paulo. A coluna acompanhou a transmissão.
Galípolo não mencionou o antecessor, mas não deu amparo a petistas que apontam responsabilidade na gestão de Roberto Campos Neto. Sabendo que era ouvido por um público que não conhece todas as regras do sistema financeiro, fez questão de esclarecer que não há proibição de captar por taxas acima do CDI, uma das características mais conhecidas do Master. O problema, disse, é o efeito desse tipo de atuação:
– Para quem não sabe como funciona um banco, o essencial é receber mais e antes do que paga quando capta. Se o casamento entre passivo e ativo é bem feito, qualquer adversidade só deveria afetar o crescimento, mas não liquidez ou solvência.
A fraude foi detectada nesse estágio da supervisão do BC sobre o Master. Conforme o presidente do BC, ainda há discussão de novas medidas, a partir dessa lição, para reduzir riscos para o sistema.
Conforme Galípolo, no final de 2024 o Master começa a passar por crise de credibilidade que impõe restrição de liquidez (dinheiro disponível para bancar os compromissos).
– Em novembro de 2024, a diretoria de Fiscalização, e não falo para me eximir de responsabilidade, mas para dar o crédito, chama a instituição e dá um cartão amarelo. Deu seis meses para que apresentassem correções na liquidez, na governança e no patrimônio — relatou.
O presidente do BC afirmou que é habitual, em situações como essa, que o banco passe a vender ativos para ter liquidez. Em janeiro de 2025, foi formado um grupo especial no BC para fazer diligências, porque em vez de vender carteiras existentes, o que era ofertado eram novas. Em março, constatou que não eram legítimas:
— Não foram encontradas evidências que corroborassem a existência da carteira. O BC não faz notícia de crime, isso é função da polícia, do Ministério Público. O BC relata fatos a serem investigados por quem tem competência.
Essa notificação, reforçou Galípolo, saiu das mãos do ex-diretor de Fiscalização Renato Gomes – um dos últimos remanescentes da gestão de Campos Neto.
— Quando perguntam porque levou tempo, a resposta está aí. Era preciso fundamentar bem, para que não fosse tomado de maneira muito 'apressurada', e mesmo assim ocorreu (menção ao ministro do Tribunal de Contas da União Jhonatan de Jesus, que mencionou "precipitação").
Galípolo disse que o BC ainda enfrenta questionamentos sobre uma liquidação feita há 50 anos e outra, há 20. Ainda justificou a intervenção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) antes da liquidação do Master. Disse que não foi "linha de crédito", mas antecipação do pagamento que seria feito em caso de liquidação, porque alguns CDBs estavam vencendo.
O presidente do BC ainda afirmou que, na segunda carta do "acionista do Master" (não mencionou o nome de Daniel Vorcaro em qualquer momento), havia proposta de "saída organizada", que significava liquidação. Galípolo ainda agradeceu o apoio das instituições do sistema financeiro "em prol da transparência e da luz do sol" e da Procuradoria-Geral da República. E ainda afirmou:
— Não se pune a instituição e tenta salvar as pessoas. Enquanto existir gente e instituições, sempre pode existir malfeito. Não cabe penalizar a instituição, que foi vítima de quem tomou aquelas decisões. É preciso tentar salvar a instituição e responsabilizar as pessoas.
Galípolo encerrou o relato sobre o Master com um recado:
— Agradeço a Deus por estar passando por um processo como este com um presidente como Lula, que deu autonomia ao BC e à Polícia Federal. E agradeço demais ao ministro Fernando Haddad, que desde o primeiro momento deu tranquilidade de que o BC trabalharia com autonomia, sem perguntar o que está sendo descoberto, e à proteção do presidente da República.


