
Como se previa desde que o banco Master foi liquidado e seu dono foi preso – só por alguns dias, como costuma acontecer com esse tipo de suspeito –, o escândalo chegou à cúpula do poder. Mais precisamente, encostou no presidente do Senado, Davi Alculumbre (União Brasil-AP). Ele não é investigado, mas tem de responder pela indicação dos dirigentes do regime próprio de previdência do Amapá, seu Estado de origem.
Na medida que se conhece os detalhes investigados pela Polícia Federal (PF), que fez operação de busca e apreensão no Amapá Previdência (Amprev), fica mais clara a estratégia do dono do Master, Daniel Vorcaro. O presidente afastado do Amprev, Jocildo Lemos, e o conselheiro José Milton Gonçalves obrigaram o comitê de investimentos a aprovar aplicações no Master que somam cerca de R$ 400 milhões.
Insistiram mesmo com um parecer técnico da Caixa que alertava para risco de insolvência. E com 40% da carteira concentrado no Master. E em letras financeiras do banco de Daniel Vorcaro, opção tão arriscada que sequer é coberta pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). E o fizeram preterindo alternativas de aplicar em bancos maiores e mais sólidos, como BTG, Santander e Safra. E tudo isso ocorreu em julho de 2024, quando as dificuldades do Master eram discutidas abertamente, como reforçou o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo.
Quando o Master foi liquidado, o Ministério da Previdência Social informou que 18 regimes próprios de Estados e municípios tinham ao menos R$ 1,9 bilhão aplicados em letras financeiras do Master. Os negócios haviam sido feitos entre outubro de 2023 e dezembro de 2024.
Ou seja, a ofensiva sobre os fundos de pensão começou quando já começava a fazer água o "modelo de negócio" de Vorcaro, que considerava a rede de proteção do FGC para seus clientes de CDBs com rendimento muito acima do mercado. Essa era uma das utilidades da rede de influência de Vorcaro, que buscou socorro em um banco estadual, o Banco de Brasília, e em fundos de pensão públicos.
O que torna esse caminho ainda mais absurdo é o que letras financeiras não só não têm cobertura do FGC, como ainda podem ter a chamada cláusula de subordinação", o que significa que os credores podem ser os últimos a receber em caso de falência ou inadimplência. São as que oferecem maior remuneração. O Master não apenas explorou o FGC e frustrou clientes. Também comprometeu o sustento futuro de aposentados e pensionistas.


