
Com o semblante inabalável, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse, na terça-feira (3), que uma eventual CPI do Master terá de esperar sua vez na "fila". Não lhe importa se "podemos estar diante da maior fraude da história do Brasil", como afirmou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
— No ano passado, tivemos algo em torno de 15 ou 16 CPIs protocoladas, acabamos não instalando nenhuma, e agora nós vamos fazer o debate sobre essas CPIs. A Câmara tem que obedecer regimentalmente o funcionamento de cinco CPIs ao mesmo tempo, se for decisão da presidência instalar e nós vamos, no momento certo, estar tratando dessa pauta da CPI – declamou Motta.
Quem conhece os meandros do poder em Brasília sente cheiro de acordão. O escândalo do Master é tão suprapartidário que tende a unir todos contra uma exposição ainda maior. Ainda que a alegação para não criá-la seja patética, a CPI do Master não fará falta.
Não será com discurso e circo que se entenderá como foi possível um único banco, de porte médio, ter depenado R$ 47 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), provocado prejuízo estimado em R$ 5 bilhões – até agora – ao banco público do Distrito Federal, o BRB, e causado perda calculada em R$ 1,8 bilhão a sistemas de previdência de Estados e municípios.
Estão abertos inquéritos na Polícia Federal – sobre o Master e o BRB –, além de sindicância no Banco Central (BC). Além de menos barulhentos, esses instrumentos costumam ser mais eficazes do que CPIs. Mas já que a Câmara vai seguir a fila, a essa altura é bom compilar o alcance das conexões política de Daniel Vorcaro, dono do Master – e, ao que tudo indica, de meia Brasília, se essa conta não estiver subfaturada. Como são muitas, a coluna vai se restringir às mais notáveis.
Luiz Inácio Lula da Silva: teve reunião com Vorcaro em dezembro de 2024, articulada pelo do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que atuava como consultor do Master. O atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad, diz que foi antes que se soubesse de fraude, só conhecida no Planalto após a posse de Gabriel Galípolo no BC, em janeiro de 2025. Em 23 de janeiro, antes que se soubesse do encontro, Lula falou em "golpe de R$ 40 bilhões". Isso teria incomodado o ex-banqueiro, que na terça-feira (3) espalhou a versão de que pode "entregar" seus contatos no atual governo (quase todos relacionados abaixo).
Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas: o cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, empresário e pastor, esteve entre os maiores doadores das campanhas dos dois candidatos em 2022. Destinou R$ 3 milhões a Bolsonaro e R$ 2 milhões a Tarcísio. Foi no mandato de Bolsonaro que o Master cresceu com seu modelo com alavancagem muito acima da média. Um dos supostos sócios de Vorcaro, Nelson Tanure, foi um dos beneficiados por privatizações no Estado de São Paulo.
Ricardo Lewandowski: o ex-ministro da Justiça integrou o comitê estratégico do Master. Tinha contrato de assessoria jurídica desde agosto de 2023 estimado em R$ 6,5 milhões, do qual se afastou para assumir a pasta. Mas seu filho manteve a prestação de serviços até setembro de 2025.
Jaques Wagner: o líder do governo no Senado é chamado, ironicamente, de "head hunter (recrutador) de Vorcaro". Admitiu ter indicado ao ex-banqueiro tanto Mantega quanto Lewandowski. Wagner integra o chamado "núcleo baiano" relacionado ao ex-sócio do Master Guga Lima, também integrado pelo ministro da Casa Civil Rui Castro, seu sucessor no governo da Bahia.
Ciro Nogueira: o líder da oposição ao governo Lula apresentou em 2024 projeto que aumentava o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF/CNPJ. Como afirmou Vorcaro em depoimento à Polícia Federal, a cobertura do FGC era parte de seu "modelo de negócios" (leia-se atentado ao sistema financeiro).
Ibaneis Rocha e Cláudio Castro: o governador do Distrito Federal tem a explicar como o BRB se envolveu na tentativa inexplicável de compra do Master. O do Rio precisa esclarecer ainda menos compreensíveis aportes da Rioprevidência em letras financeiras do banco de Vorcaro, uma decisão de risco aprovada em 10 dias. Os dois casos envolvem potenciais pesados prejuízos aos cofres públicos do DF e do Estado do Rio. Essa conexão inclui Antônio Rueda, presidente do União Brasil, que chegou a participar de reuniões sobre a compra do Master pelo BRB. O que teria a dizer?
Hugo Motta e Davi Alcolumbre: os presidentes da Câmara e do Senado são apontados como "aliados" de Vorcaro. Motta chutou a CPI do Master para o dia de são nunca e Alcolumbre foi escolhido pelo ministro do STF Dias Toffoli como "fiel depositário" de dados do ex-banqueiro. Na segunda-feira (2), a Advocacia do Senado ignorou um pedido da CPMI do INSS para ter acesso ao material.
Sim, faltam muitos. Mas não cabem todos em um só texto.




