
A essa altura, era até difícil entender por que seguia autorizada a operar a empresa que mudou de nome, mas ainda era a mesma Reag Investimentos que estava no foco da operação Carbono Oculto como suspeita de operar fundos abastecidos com recursos vindos da infiltração do PCC em negócios privados. Nesta quinta-feira (15), o Banco Central (BC) anunciou sua liquidação. Será que agora alguém poderá achar que houve "precipitação"?
Como no caso do Master, o BC agiu depois de uma operação policial, desta vez a segunda fase da Compliance Zero. Nessa etapa, estavam em foco fundos geridos pela Reag que ajudavam a desviar dinheiro do Master para terceiros. O esquema é complexo, mas pode ser simplificado assim: empresas com capital social baixo – por exemplo, R$ 5 mil – contratavam no Master um empréstimo de R$ 300 mil ou R$ 400 mil e aplicavam em um fundo. Capital social é o dinheiro usado para criar e sustentar um negócio até que comece a dar lucro.
Essa é a tradução para o que o BC apontou como "sobrevalorização de cotas a partir de precificação não comprovada de carteiras de ativos ilíquidos". Detalhe: no sistema financeiro tradicional, é virtualmente impossível uma empresa conseguir financiamento 60 vezes maior do que seu capital social sem garantias. A partir daí, compravam ativos por quantias muito acima do real valor de mercado, "criando" dinheiro. Parte voltava para o Master e parte era distribuída para supostos "laranjas", resultando no enriquecimento da família de Vorcaro.
Esse esquema foi motivo para a PF fazer busca e apreensão de bens e celulares de João Carlos Mansur, fundador e ex-presidente da Reag. Logo depois da Carbono Oculto, a gestora tentou lavar a imagem: mudou de nome para CBSF e Mansur renunciou ao cargo.
Diferentemente de Vorcaro, que gostava de se apresentar como "outsider do mercado financeiro", Mansur tem currículo. Atuou como executivo em empresas como PricewaterhouseCoopers (PwC), Monsanto e WTorre Arenas, na qual se envolveu com a construção do estádio Allianz Parque. Outra de suas atividades era na gestão de clubes esportivos: é conselheiro no Palmeiras, gestor financeiro do estádio do Corinthians e intermediário de investimentos bilionários em outros times.
E além das duas operações policiais já citadas, Mansur é alvo de investigação em uma terceira, a Quasar, paralela à Carbono Oculto. Seu foco específico era o uso de fundos de investimento para ocultar patrimônio de origem ilícita, com indícios de ligação com facções criminosas.
Foram montadas camadas societárias e financeiras, nas quais fundos de investimento detinham participação em outros fundos ou empresas (o que a coluna chama de "cubo mágico", em uma tentativa de explicar o esquema). O objetivo é dificultar a identificação dos donos do dinheiro.





