
Um dos principais objetivos da investigação interna aberta pelo Banco Central (BC) sobre o caso Master é responder a uma pergunta que circula no mercado desde que a decisão foi tomada: a instituição demorou a decretar a liquidação extrajudicial do banco de Daniel Vorcaro?
Essa é a dúvida que, desde novembro de 2025, assombra o mercado e o próprio BC, não a suposição levantada por um ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) de que a decisão teria sido "precipitada", que espantou até o cidadão menos informado sobre o caso em dezembro. Na origem da dúvida, está o fato de que a operação do Master era vista com desconfiança no mercado desde 2023.
Até agora, há dois funcionários graduados afastados, ainda sem acusação formal. Mas ao menos um deles causou constrangimento ao BC. Despachos assinados pelo então chefe do departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana, que afirmam não haver indícios de irregularidades em operações de crédito consignado do Master, foram apresentados pela defesa de Daniel Vorcaro. Depois, o INSS apontou problemas em ao menos 74% desses contratos.
Trata-se de uma auditoria 100% independente, realizado pela corregedoria do BC, o que significa que nem o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, tem poder para interferir na investigação. A justificativa técnica é apurar se houve falha de regulação e se há regras a serem ajustadas, como é feito quando acontece uma queda de avião.
A extraoficial é esclarecer suspeitas que cercam tanto a gestão atual quando a anterior, conduzida por Roberto Campos Neto, que comandava o BC até o final de 2024. Na manhã desta quinta-feira (29), ao comentar o caso, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou:
— Assim que Galípolo assumiu, viu o tamanho do 'abacaxi' que havia herdado.
No sistema financeiro, que vem apoiando as decisões da instituição sobre o Master e outros bancos, a investigação também é vista como uma forma de rever tudo o que foi feito porque há crença de que isso fortaleceria a instituição. A apuração vem se desenvolvendo há semanas e só agora foi revelada, por meio de reportagem do jornal O Globo.
Os rastros do Master, até agora
Os CDBs
Para ganhar volume, o Master oferecia CDBs com remuneração muito acima da média do mercado. No sistema financeiro, isso não é "ser atrativo", embute comportamento de risco, já que é quase impossível ter resultado que sustente esse nível de retorno. No depoimento à PF, Daniel Vorcaro afirmou que a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para aplicações de até R$ 250 mil por cliente era parte do "modelo de negócio". Isso é algo como usar dinheiro público para pagar contas privadas.
As retiradas
Entre os objetos da investigação, estão fundos cujos titulares são pessoas com renda incompatível com as quantias movimentadas. A PF apura se seriam "laranjas" que repassariam os recursos que deveriam ser dos clientes do Master a Vorcaro e seus familiares.
A fraude
Até agora, a suspeita mais grave é a de fraude nas transações com o Banco de Brasília (BRB). O Master vendeu (é fato) ao BRB R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito. Essas carteiras teriam sido (está sob investigação) compradas de uma empresa recém-criada, chamada Tirreno, por R$ 6,7 bilhões, menos da metade do preço. Mas Vorcaro disse à PF não ter feito qualquer pagamento à Tirreno. Essa operação seria com uma quarta empresa, a Cartos. Por essa versão, o negócio não teria sido fechado. À pergunta sobre o que, então, o Master teria vendido ao BRB por R$ 12,2 bilhões, Vorcaro disse não saber. A sobrevivência do Master dependia dessa transação.
O conselho
Em 2023, pouco antes de o Master virar alvo de atenção do Banco Central, Vorcaro montou um conselho de estrelas, integrado por nomes como o do ex-presidente do BC Gustavo Loyola e o ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski. Com a saída de Lewandowski para o Ministério da Justiça, o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles entrou para o grupo.



