
Depois de ameaças veladas até de invasão armada, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, protagonizou um megarrecuo no caso da Groenlândia. Disse a uma inquieta plateia do Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça) que não vai usar a força para tomar a maior ilha do planeta e, mais tarde, anunciou um acordo costurado com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que contemplaria seus interesses.
Tamanha mudança de posição causou alívio, mas também estranhamento: o que teria feito Trump mudar de ideia de forma tão abrupta? Conforme o Financial Times, jornal britânico especializado em economia, foi outra vez o mercado – como havia ocorrido com o tarifaço, quando a reação passou a afetar a remuneração dos títulos do Tesouro dos EUA, os treasuries.
Na formulação curta, Trump cedeu ao mercado. Além de ter precedentes, a tese é sustentável. Se há uma linguagem que o atual presidente dos EUA entende bem, é a do dinheiro. A reação do mercado no Brasil no dia do megarrecuo ilustra a tese: mesmo antes da mudança de posição, investidores internacionais desembarcaram em peso aqui e em outros mercados emergentes, fugindo do dólar e dos treasuries.
Se for exato – nada ainda pode ser garantido, em se tratando de Trump –, o diagnóstico oferece um conforto: existe, afinal, um freio a Trump antes das eleições de meio de mandato nos EUA, previstas para novembro. Se ele recuar toda vez que o mercado reagir mal, restará ao menos a lógica racional, ainda que focada, para evitar destruição de valor.
Ainda resta saber detalhes sobre que tipo de acordo foi construído sobre a Groenlândia por meio do secretário-geral da Otan, Mark Rutte, um holandês que costuma soar mais trumpista do que aliados nacionais do presidente dos EUA.
Nesta quinta-feira (22), um dia depois do "acordo", a Dinamarca parece não saber – ou faz de conta que não sabe – do que se trata. A primeira-ministra Mette Frederiksen afirmou que "qualquer negociação deve respeitar a soberania" de seu país, ao qual a maior ilha do mundo é ligada:
— Podemos negociar todos os aspectos políticos – segurança, investimento, economia – mas não podemos negociar nossa soberania.



