
Rubens Ricupero foi embaixador do Brasil em Washington de 1991 a 1993. Era outra época. Diz que, em sua longa carreira de diplomata, nunca viu nada parecido com as tensões protagonizadas pelo atual presidente dos EUA. Mas pondera que a crise do multilateralismo já estava posta antes desse segundo mandato, muito por ação da Rússia. E do alto de seus 88 anos, dá uma dica:
– A política externa brasileira precisa de um sopro de renovação. Tem um discurso muito datado.
Como avalia o vaivém de Trump?
Ele tem comportamento errático por natureza. É megalomaníaco, como é óbvio em tudo o que diz sobre ele mesmo. É por isso que espanta que os americanos o tenham eleito uma segunda vez. Mas está eleito, e esse comportamento não vai desaparecer, por ser inerente à personalidade.
O caso da Groenlândia não é mais grave?
O que disse, depois desdisse, não deveria surpreender tanto. Já no início do mandato, havia afirmado que anexaria o Canadá e o Canal do Panamá, depois não voltou a falar nisso. Há três semanas, disse aos iranianos que a ajuda estava 'a caminho', estão esperando até agora. Faz muita fanfarronice, executa pouco. No caso da Groenlândia, encontrou uma desculpa esfarrapada, sugerindo que o acordo cederia parte do território a ele, mas Dinamarca e Groenlândia desmentiram. É muito ingrato procurar racionalidade em comportamento que não tem. Ele tem alvos móveis.
Teremos de nos habituar a sustos?
Não tem muito remédio, a menos que Trump seja limitado internamente. Até agora, a reação é fraca. Aumentou depois do assassinato em Mineapolis (Renee Nicole Good, uma americana branca morta pela polícia de migração, a ICE), sem relação com política externa. Hoje, o partido republicano domina as duas casas legislativas. Nas eleições parlamentares de novembro, é quase certo que os democratas ganhem maioria na Câmara, mas não no Senado e, mesmo assim, comecem um processo de impeachment, como o próprio Trump já afirmou. Nenhum impeachment foi concluído com saída do presidente dos EUA. Mas com a ameaça, Trump talvez fique mais atento a problemas internos. Quando se busca alguma racionalidade em suas ações extravagantes, se vê que permitem não enfrentar os problemas reais do país.
Mostra que a loucura de Trump tem certo método. Como homem de negócios, é sensível à bolsa.
Até agora, o mercado de capitais funcionou como freio em ao menos dois momentos. Pode se repetir?
Sim, ele mencionou no discurso em Davos. Mostra que a loucura de Trump tem certo método. Como homem de negócios, é sensível à bolsa. Pode ser que a manifestação do mercado atue com mais eficiência do que qualquer outro fator.
Seria um método eficiente?
Até agora, os movimentos não duraram muito. Os mercados continuam confiantes de que não haverá crise. Como a bolsa sobe há muito tempo, economistas preveem algum ajuste, o que costuma ocorrer depois de anos de altas. Até agora, o boom da inteligência artificial tem evitado. O que pode preocupar é o aumento do pessimismo sobre conflitos. No momento, os mais importantes, o da Ucrânia e o em Gaza, estão onde já estavam. Se surgir algo novo, pode gerar comportamento mais nervoso dos mercados.
Qual sua avaliação sobre o Conselho de Paz lançado por Trump?
Não deve ir muito longe. Muitos países nem aceitaram, outros entraram para não dar demonstração de hostilidade. O Brasil se inclina, a meu ver com razão, a não participar. Além do inconveniente de ser paralelo ou substituto do Conselho de Segurança da ONU, é muito dependente da vontade de Trump. Ele escolhe quem vai entrar, quem vai continuar, tem poder de veto. É como se fosse a ONU, mas dele.
O sistema está em crise há tempo. Trump não está na origem, mas impulsiona a deterioração.
Trump implodiu o sistema de governança global criado depois da Segunda Guerra Mundial?
Não se deve exagerar papel dele na crise, que vem de antes. Teve um impacto em 2003, quando os EUA invadiram o Iraque sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, e se aprofundou em 2014, quando a Rússia anexou a Criméia e começou a estimular a secessão no Donbas (região da Ucrânia onde se fala russo e inclui Donetsk e Luhansk). O sistema nunca foi perfeito, mas a partir de 2014 começou a sofrer número maior de violações. A carta de fundação da ONU considera toda guerra ilegal, a não ser em legítima defesa ou aprovada pelo Conselho de Segurança, por ameaça à paz e à segurança do mundo. Há mais de 40 conflitos armados hoje. O sistema está em crise há tempo. Trump não está na origem, mas impulsiona a deterioração. Adotou iniciativas contra o multilateralismo, como a de sair de 66 organizações, das quais 31 do sistema da ONU. Foi um golpe ao multilateralismo. Apesar disso, não diria que o sistema desapareceu.
Mas está fragilizado, não?
Sim, está mais fraco, mas se mantém. Por exemplo, a OMC (Organização Mundial do Comércio), parte do sistema. Os EUA adotaram atitudes unilaterais (tarifaço), mas cerca de 80% do comércio mundial ainda é processado pelas regras da OMC. O único outro país que adotou medidas unilaterais foi o México. Quando há problemas que podem ser resolvidos pelo Conselho de Segurança sem divergências entre EUA, China e Rússia, são encaminhados. Quando há, paralisa. Há uma dualidade de sistemas. De um lado, o de segurança coletiva, que foi o objetivo da criação da ONU depois da Segunda Guerra Mundial e teve como principal autor um americano, Franklin Roosevelt (presidente do país na época). Queria substituir a segurança individual, o uso da força por um país. Desde o começo se provou uma quimera, como na Guerra Fria. Mas toda a descolonização da África, da Ásia e do Caribe foi feita pela ONU. É um exagero dizer que o sistema acabou. Da ONU, ninguém saiu. Nem ele.
Ameaça Groenlândia e Dinamarca, mas não China nem Rússia, com risco de conflito grave e de terceira guerra mundial.
Ainda dá para salvar?
A esperança que existe é, em primeiro lugar, por mais que Trump soe ameaçador, não perdeu o pé na realidade. Ameaça Groenlândia e Dinamarca, mas não China nem Rússia, com risco de conflito grave e de terceira guerra mundial. Desse ponto de vista, o sistema vai continuar. A esperança é de que, com as eleições de meio de mandato, comece a haver algum freio interno a ações desvairadas.
Como vê a hipótese de que Trump, diante de derrota iminente, tente evitar essa eleição?
Tem gente discutindo isso, mas é muito difícil. Correria ainda maior risco de impeachment. Até republicanos tem mencionado a 25ª emenda, que permite afastar o presidente dos EUA por falta de condições. Também parece muito remoto. O mais provável é que continue como está: vai até certo ponto e recua. No discurso de Davos, Trump lembrou Fidel Castro. Não parava de falar, divagava, falava dele. É o componente errático derivado da personalidade que não tem equilíbrio.
O acordo UE-Mercosul, que reforçaria o multilateralismo, fica para depois?
É um exemplo da situação confusa que a Europa atravessa. De fato teria interesse para eles, em parte por Trump em parte por Ucrânia. O acordo encorajaria um pouco a busca de abordagem mais consensual das relações internacionais. Embora a trava não seja definitiva, é um indício de que a Europa não está à altura, infelizmente. A UE é um grande feito de mercado comum que não é completo. Não avançaram nem em política externa comum, nem em defesa. Mostra que esse acordo é mal-assombrado. Quando parece que tudo vai ser resolvido, surge um obstáculo.
A implementação provisória, sem chancela do Parlamento, seria possível?
A possibilidade existe, os alemães são favoráveis. Mas seria muito contestada internamente. Não sei se a Comissão Europeia vai correr esse risco. Não me parece que haja intenção. No caso desse acordo, tudo pode acontecer.
A política externa brasileira precisa de um sopro de renovação. Tem discurso muito datado.
Como fica o Brasil nesse dilema?
O que deve fazer é buscar se articular com outras potências médias, como Canadá, Austrália. É preciso que juntem esforços para fortalecer multilateralismo. Podem se unir inclusive alguns europeus. É o caminho que existe para um país como o Brasil.
Há risco para a posição não alinhada, tradicional na diplomacia brasileira?
Não vejo. O melhor cenário para países como o Brasil é o multilateralismo. Se o mundo voltasse ao que era antes da Primeira Guerra – ainda não chegou a isso – seria péssimo. O sistema ainda resiste, mal e mal, mas resiste. O mundo de antes, era dos poderosos, dos que tinham força militar. Só contariam, hoje, EUA, Rússia e China, as grandes potências nucleares. Países como o Brasil e outros não têm hard power, o poder dar armas, só o soft power da diplomacia, das negociações, do multilateralismo. É por isso que os médios têm de ser juntar.
Como vê a crítica ao Brasil por ter ignorado Davos?
Não por Davos, não pelo Fórum, que não tem grande espaço para negociar. Mas a política externa brasileira precisa de um sopro de renovação. Tem discurso muito datado. Depois do discurso em Davos do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, é fácil de perceber. Cada frase curta define algo importante do mundo. O Brasil continua com chavões. Não é que a política do atual governo esteja errada na essência, mas é acanhada. Não temos dito coisas essenciais inclusive por ser muito personalizada na figura de Lula.



