
O atual presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo e Gás (IBP), Roberto Ardenghy, é diplomata de carreira – com passagem pela representação em Washington – e foi diretor de Sustentabilidade da Petrobras. Alia conhecimento em relações internacionais a informações técnicos no segmento, além de combinar passagem pela estatal brasileira à representação da entidade que concentra o interesse das petroleiras internacionais no Brasil. Como gaúcho, torce para que a prospecção na Bacia de Pelotas, no litoral do RS, seja bem-sucedida, até porque vê a descoberta de novas jazidas como essencial para o Brasil, que pode ver a produção no pré-sal declinar a partir de 2030.
Dias após a invasão da Venezuela pelos EUA, está claro o que pretendem fazer sobre o petróleo?
Não, ainda não se sabe. Do ponto de vista do petróleo, é importante mencionar, não é o governo americano que decide investir em nenhum país. As empresas são privadas, têm ações negociadas em bolsa de valores, existem acionistas e uma grande estrutura de governança para decidir seu processo de investimentos. Então, isso faz com que eu tenha certeza que existem intenções, mas não uma definição. A Venezuela é hoje um país de alto risco. Já era e continua sendo.
O fato de ter sido mantido o mesmo governo, só sem sua principal figura, não faz com que a segurança jurídica na Venezuela seja bastante peculiar, para dizer o mínimo?
Exatamente. Nos anos 1970, quando houve a crise do petróleo, o Brasil importava 90% do petróleo que consumia. Havia uma dependência enorme, especialmente dos países árabes, porque nós consumíamos naquela época muito aquele petróleo tipo leve. Nosso parque de refino tinha sido preparado para importar aquele petróleo. Chegamos a 2025 exportando 1,7 milhão de barris de petróleo de alta qualidade, que é o petróleo do pré-sal, médio em grau API (nem leve, nem pesado), e com baixa emissão de carbono, por isso muito aceito no mercado internacional. Isso se deu pela presença de uma empresa do tamanho e da competência da Petrobras, mas também pela presença maciça de investidores estrangeiros. Quase todas as grandes empresas de petróleo do mundo estão no Brasil, porque veem estrutura regulatória sólida. Temos a Agência Nacional do Petróleo (ANP), um órgão regulador respeitado, e existe permanência da legislação. Isso faz com que as empresas se sintam estimuladas a ficar em um país assim, e fogem de países que têm mudanças bruscas.
Até os oleodutos foram roubados. As pessoas foram levando o aço, pouco a pouco, durante 20 anos, para vender como sucata.
Se essa questão for superada, quão rápida pode ser a retomada na Venezuela?
As pessoas acham a produção vai duplicar em um ano, com investimento maciço. Ainda que os recursos voltem, fizemos um estudo aqui no IBP e um dos principais projetos existentes na Venezuela deve levar de seis a oito anos para retomar a produção, tal o nível de decomposição dos ativos. Lá, até os oleodutos foram roubados. As pessoas foram levando o aço, pouco a pouco, durante 20 anos, para vender como sucata. Levaram válvulas de pressão, torres de produção. Então, tudo isso vai ter de ser refeito e recomposto, Sem contar que o petróleo da Venezuela é muito viscoso, superpesado.
Trump anunciou que os EUA iriam "tomar" 50 milhões de barris, a PDVSA disse que não era bem assim. Existe alguma certeza?
A relação entre EUA e Venezuela no setor de petróleo é histórica. Quando houve a expansão do automóvel, no início do século 20, os americanos começaram a ir morar nos subúrbios, então se construiu uma enorme quantidade de estradas, e o consumo de gasolina e de diesel explodiu. Foi nesse momento que os EUA identificaram um país país latino-americano próximo, com uma enorme reserva. Houve investimento maciço de Standard Oil, ExxonMobil, Chevron e ConocoPhillips, que começaram a produzir na franja do Orinoco e no lago de Maracaibo. E os EUA prepararam seu parque de refino, no Golfo do México, para esse tipo de petróleo. A Venezuela chegou a ser a maior exportadora de petróleo do mundo, vendia cerca de 3,5% do total. A criação da PDVSA foi uma estatização, depois o (Hugo) Chaves (antecessor de Maduro) deu o golpe de misericórdia na indústria.
Tentando ler a mente de Trump, quando ele fala em tomar 50 milhões de barris, o que teria de acontecer é pagar as empresas que estão com ações judiciais (por estatização).
E isso gerou uma batalha jurídica?
Exatamente, quando as empresas americanas saíram da Venezuela nessa situação de expropriação, criaram ações judiciais gigantescas nos tribunais internacionais, que hoje são de bilhões de dólares. Então, tentando ler a mente de Trump, quando ele fala em tomar 50 milhões de barris, a primeira coisa que teria de acontecer é pagar as empresas que estão com ações judiciais.
Os dados mostram que o segundo maior produtor de petróleo das Américas, depois dos EUA, é o Brasil. Corremos algum risco?
Não creio. Primeiro, porque as empresas estrangeiras estão regulares aqui, estão fazendo seus negócios, não houve problema mesmo no momento mais nacionalista, de estatização. Ao contrário vejo as empresas estimuladas a continuar investindo no Brasil. Então, não há motivo, ao menos no setor de petróleo. O ambiente geopolítico maior é uma coisa que eu, apesar de eu ter sido diplomata há muitos anos, vou me abster de comentar. Também não vejo risco, como chegou a ser especulado, de que a Venezuela tire mercado do Brasil. São mercados diferentes. O país que pode ser afetado por uma futura expansão da Venezuela é o Canadá, que também é pesado e hoje abastece as refinarias equipadas para esse tipo de óleo.
Pode haver rearranjo do mercado?
O mercado de petróleo é muito diverso. Cada campo tem uma característica físico-química diferente do outro porque um pode ter surgido a partir de uma manada de elefantes, outro, de uma floresta de pinus. É por isso que é possível identificar a origem de um derramamento, como ocorreu no Brasil em 2019. O jogo geopolítico não se dá mais no petróleo. Não tem um controle central. Mudança pode ocorrer, mas não é no curto prazo, é em 10 anos. Antes disso, não vai haver mudança de paradigma, ao menos não com a Venezuela. A Guiana tem mais condições, porque começaram a produzir 200 mil barris por dia (bpd) e chegaram agora no final do ano a 800 mil bpd, tanto quanto a Venezuela.
Como gaúcho, como vê a prospecção na Bacia de Pelotas?
É importante pesquisar outras bacias sedimentares brasileiras, porque das nossas nossas duas mais importantes, a de Santos e a de Campos, uma já está madura. Hoje, a de Campos produz 50% do que já rendeu. E esse é um processo inexorável. Quando o petróleo acaba, acaba. O pré-sal tem vida mais longa, mas entre 2030 e 2035 vai entrar no mesmo processo, e o Brasil vai ter um grande desafio. Terá de buscar novas reservas, seja na Margem Equatorial ou na Bacia de Pelotas. A sísmica na de Pelotas ainda está em execução, é o primeiro passo. Na Margem Equatorial, já foi feita há muito tempo. É bom que no RS seja feita pela TGS, uma empresa norueguesa de altíssimo nível.



