
Por mais que tenha sido precedido por ameaças e ações preparatórias, o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, com captura do presidente Nicolás Maduro anunciada pelo próprio Donald Trump, abre um abismo de incerteza. Não só econômica e financeira, com possíveis impactos no preço do petróleo e outra variações abruptas, mas em eventuais desdobramentos de geopolítica.
Por mais que Maduro ocupasse o cargo de forma irregular, "eleito" em um pleito marcado por irregularidades, é difícil entender porque Trump mira neste ditador e recebe para jantar na Casa Branca o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, acusado pela CIA de ser o mandante do assassinato do jornalista saudita de oposição Jamal Khashoggi, que trabalhava para o jornal americano The Washington Post.
Não há qualquer legislação internacional que ampare a ação dos EUA. Portanto, não se sabe qual será a reação prática de aliados poderosos da Venezuela, como Rússia e China, ao ataque americano, que está sendo comparado à ação no Iraque durante o governo de George W. Bush, com a acusação de tráfico substituindo as nunca encontradas "armas de destruição em massa".
Até agora, a Rússia se limitou a condenar a ação militar dos Estados Unidos, caracterizando-a de "profundamente preocupante e condenável", em comunicado do Ministério das Relações Exteriores. Depois de uma conversa com Rubio, a principal diplomata da UE (União Europeia), Kaja Kallas, vice-presidente e alta representante do bloco para assuntos internacionais, reiterou que Maduro "carece de legitimidade", mas lembrou que "em todas as circunstâncias, os princípios do direito internacional e a Carta da ONU devem ser respeitados". Não foi o caso.
Nem um eventual interesse no petróleo venezuelano dá conta de explicar essa interferência indevida na política de outro país. O secretário de Estado, Marco Rubio, atribuiu o ataque seguido de detenção de Maduro e de sua mulher, Cilia Flores, ao fato de o venezuelano estar "sob acusação por levar drogas aos Estados Unidos".
É bom lembrar que um ataque a país estrangeiro só é admitido em dois casos: legítima defesa imediata ou com aprovação do conselho de segurança das Nações Unidas. Nenhuma dessas circunstâncias – nem as alegadas por Trump e Rubio – está contemplada no ataque deste sábado. Trump encarou o abismo. O risco é de que o abismo também olhe para Trump.

