
O jornalista Anderson Aires colabora com a colunista Marta Sfredo, titular deste espaço.
Após bater sucessivos recordes neste final de ano, a bolsa brasileira vai continuar atingindo máximas históricas em 2026, prevê Luciano Telo, executivo-chefe de investimentos (CIO) para o Brasil no UBS Global Wealth Management, gestor de patrimônio do banco suíço UBS. O principal gatilho é externo, o que deve se manter ao longo do primeiro semestre. Na segunda parte do ano, com eleição, o cenário é mais incerto. Telo estará em Porto Alegre na terça-feira (9) para evento com clientes do UBS.
No início de novembro, a bolsa havia atingido 150 mil pontos pela primeira vez e, um mês depois, chegou a superar os 160 mil. Como explicar?
A bolsa brasileira estava bastante descontada há algum tempo. Neste ano, as bolsas dos países emergentes, de maneira geral, ganharam fôlego. A combinação de juro caindo nos EUA, crescimento mundial bom, mesmo com a ameaça de tarifas, e dólar perdendo espaço é o ambiente ideal para emergentes. Deixa de entrar dinheiro novo nos EUA e vai para mercados alternativos. Bolsas de México, Chile e Colômbia andaram, países emergentes como Turquia e África do Sul também, e até desenvolvidos. É uma maré que levanta todos os barcos, e o Brasil vai de carona no movimento global. Também tivemos algumas questões específicas no Brasil: juro relativamente alto e câmbio mais apreciado, que resulta em ambiente de procura pelos ativos brasileiros, pela moeda e bolsa brasileiras, que estava mais descontada do que a média dos emergentes.
A tendência de valorização da bolsa é de longo prazo?
Para o começo de 2026, a tendência deve continuar. Vamos entrar 2026 com mais posição de risco do que a média histórica. Ainda é um ambiente de dólar mais fraco, de corte de juro nos EUA. Temos posição um pouco maior do que a posição histórica da bolsa brasileira e vamos manter assim, principalmente no primeiro semestre do ano que vem. A relação ao preço/lucro da bolsa segue abaixo da média histórica. Ainda tem o benefício adicional de corte de juro potencial no Brasil. Então, a bolsa deve renovar recordes nos próximos próximos seis meses.
Como eventual impulso fiscal devido à eleição entra na conta?
A parte fiscal entra de maneira dual. Traz mais crescimento para o Brasil, mas a política fiscal atual do governo é insustentável, joga contra a bolsa. No segundo semestre, a situação fiscal deve voltar a ser importante para preços de mercado por causa da eleição. E depois que o Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) já tiver cortado bastante o juro, serão necessárias notícias adicionais após o segundo semestre para continuar fazendo a bolsa andar.
Tem espaço para bolsa de 15% ou 20% tranquilamente
LUCIANO TELO
CIO para o Brasil no UBS Global Wealth Management
Qual a projeção da bolsa para o próximo ano?
A gente não gosta de divulgar o número, mas a gente vê crescimento de lucros forte. Tem espaço para bolsa de 15% ou 20%, tranquilamente.
Com as tarifas, quão desafiador está sendo o ano de 2025 no mercado de investimentos?
Sempre é desafiador no mercado financeiro, porque depende de uma quantidade muito grande de variáveis. As tarifas que poderiam trazer inflação nos EUA foram um dos desafios de 2025, mas superamos período de alguns meses de incerteza, com aquela queda em abril nas bolsas. Mas tenho chamado a atenção dos investidores que, se você tentar antecipar todos os riscos, não faz nada. E se não fizer nada, pode não participar de tendências que são importantes.
Bolha da inteligência artificial é um risco?
A relação preço/lucro das empresas de tecnologia está alta. A bolsa americana está mais cara. Com lucro crescendo na velocidade que as empresas de tecnologia estão crescendo, é natural de se esperar que o preço esteja caro, porque todo mundo quer quer ser sócio. O problema é que o mercado sempre opera com expectativa. Então, quando o mercado diz que um resultado é bom e que pode melhorar para o próximo trimestre, sempre espera que se não melhorar além do projetado, a ação não teria mais espaço para subir. Tem de crescer em taxa maior do que o mercado já está esperando. É uma armadilha, porque uma hora você não consegue preencher a expectativa do mercado, que é sempre crescente. Então, existe o risco de algum resultado decepcionar e de realização de 20% na bolsa americana.
O banco central americano está diminuindo o juro, é um momento favorável para o mercado
LUCIANO TELO
CIO para o Brasil no UBS Global Wealth Management
Está no cenário para 2026?
O crescimento de lucro das empresas é sólido e real, e a gente acredita que a inteligência artificial de fato vai trazer produtividade. Não é um momento que a gente fica mais preocupado com reavaliação de preço do mercado, porque o banco central americano está diminuindo o juro, é um momento favorável para o mercado.
Com taxação de lucros e dividendos em 2026 via reforma do IR, há algum temor de saída de capital neste final de ano?
Se você tem uma empresa que tem sede fora do Brasil e você vai ser tributado eventualmente em dividendos, tem incentivo reverter primeiro dividendos enquanto ainda não tem de ser pago. Então, deve ter um pouco mais de pressão sobre a moeda. Os operadores têm apontado que pode ter mais uns 10 centavos de desvalorização do real em função do fluxo mais concentrado final deste ano, mas a gente não trabalha com o ambiente como de dezembro de 2024, com dólar a R$ 6,30.
*Colaborou João Pedro Cecchini





