
Para o ex-diretor de Política Econômica do Banco Central Fabio Kanczuk não existe qualquer risco sistêmico, ou seja, que ameace todo o sistema financeiro, com a liquidação do banco Master.
— Na minha passagem pelo BC, ficou claro o cuidado com a saúde do sistema financeiro, que é muito maior do que em outros países. Isso tem um custo. Como não é permitido alavancar muito (dar mais crédito na proporção dos ativos), o sistema financeiro anda mais devagar, tem menos dinheiro rodando, menos empréstimo. Reduz o risco de crise, mas a economia também cresce menos — pondera o atual diretor de macroeconomia do ASA, grupo financeiro ligado à família Safra.
Segundo Kanczuk, nos Estados Unidos a regulação "aceita" uma crise em média a cada 20 anos.
— A cada 20 anos pode ter uma quebradeira, e é parte do jogo. No Brasil, é muito mais seguro. O caso do Master, envolve uma questão de, provavelmente, corrupção. Vai ter gente que vai pagar por isso que não deveria pagar, todo mundo fica bravo, eu também, mas não vai se transformar em nada sistêmico.
Ao responder à pergunta sobre se o BC demorou a agir no caso do Master, Kanczuk foi menos conclusivo:
— Não sei a resposta. Uma das perguntas que tenho é por que não exigiram mais capital para os precatórios (o Master acumulou R$ 16 bilhões, ao que tudo indica adquiridos no mercado). A dúvida existe porque todo mundo falava 'o Master tem uma fraude', não foi surpresa. O trabalho de regulador financeiro tem de ser meio quieto, para não gerar corrida bancária.
Na avaliação do ex-diretor do BC, o cenário de inadimplência nas empresas, que seria um elemento de pressão para o esperado corte de juro, ainda não reflete gravidade suficiente:
— Quando o BC sobe o juro, o objetivo é desacelerar a economia e machucar. Não tem outra forma. Não se aumenta a taxa para ajudar as empresas. A ideia é combater a inflação, depois vai ser bom. Mas, no curto prazo, é esperado ver piora na inadimplência. A que houve é muito pequenininha. Então, ainda precisa mais tempo de juro alto para começar a ver esse efeito.
Para Kanczuk, parte dos "eventos de crédito" – recuperações judiciais, extrajudiciais e outros – ainda tem efeito da pandemia:
— Caiu a receita, a empresa não se corrigiu, conseguiu crédito subsidiado, vai arrastando. Tem mais problema estrutural e efeitos defasados da pandemia do que política monetária.






