
O jornalista Anderson Aires colabora com a colunista Marta Sfredo, titular deste espaço.
O economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), afirma que em 2025 a alimentação domiciliar ajudou a aliviar a alta dos preços diante de uma safra boa e um câmbio menos pesado.
Em 2026, sem alguns desses estímulos, o cenário deve se inverter, segundo Braz. Além disso, ano eleitoral embaralha ainda mais as expectativas.
Quão abaixo do teto a inflação deve ficar neste ano?
Acho que a inflação de 2025 fecha entre 4,1% e 4,2%. Isso representa uma inflação 0,3 ponto porcentual abaixo do teto da meta, que é de 4,5%. A gente não está na meta, que é de 3%. Mas levando em conta que no início de 2025 as previsões colocavam a expectativa de inflação próxima de 6%, fechar o ano com uma inflação em torno de 4,1%, 4,2% é uma bela conquista.
O que provocou essa desaceleração?
Foi uma alta menor em torno dos alimentos, principalmente da alimentação em domicílio. No início do ano, a previsão era de uma alta de 8% para os alimentos. E nós podemos fechar com uma alta em torno de 3%. A safra e o câmbio ajudaram a diminuir a pressão dos alimentos.
Como a alimentação do domicílio compromete algo em torno de 18% do orçamento familiar, uma desaceleração forte da expectativa de inflação em torno desse segmento colocou o IPCA dentro do teto da meta. Mas não tivemos uma desaceleração generalizada, porque os serviços livres e os preços monitorados devem fechar o ano bem acima do teto de tolerância, mostrando que a inflação ainda nos desafia.
O que causou pressão em serviços e monitorados?
Temos uma taxa de desemprego baixa. E isso faz com que as famílias gastem mais, principalmente em serviços. Se tem mais gente trabalhando, é provável que essas pessoas também dependam mais dos serviços para tocar o seu dia a dia. Então, usam mais táxi por aplicativo, usam mais refeições fora de casa, consomem mais passagem aérea, vão mais ao médico. Tudo isso ajuda a sustentar serviços num patamar um pouco mais alto. No caso dos preços monitorados, tem o câmbio e o clima também.
Se não fosse o câmbio, teria novo estouro da meta?
Com certeza, porque o câmbio nos penaliza de duas maneiras. Primeiro, ele encarece tudo que a gente importa e depois ele estimula muitas exportações, porque quando a nossa moeda desvaloriza é como se os produtos brasileiros entrassem em promoção, fica mais barato em comparação ao mundo e a gente atrai mais compradores. Então, é claro que quando alguém compra do Brasil entram dólares que ajudam a suavizar esse efeito cambial, só que encarece muito o preço dos alimentos.
A postura do Banco Central teve o efeito desejado?
Até o meio do ano, o BC via a expectativa de inflação para este ano e para os próximos subir. Isso sugeria desancoragem das expectativas e os agentes econômicos não estavam mais acreditando na política monetária. Mas o aumento de juro posicionou melhor o BC. Reforçou que ele está comprometido com a meta e a gente começou a ver então o efeito contrário, de recuo da expectativa de inflação. Isso sugere ancoragem das expectativas. O juro mais alto também blinda um pouco a nossa moeda e isso ajuda muito a inflação. Tem também uma terceira questão que é a de carregar um pouco o piano da política fiscal.
Para 2026, como deve ficar a inflação?
A inflação do ano que vem pode ficar em torno de 3,6%, 3,8%, a depender um pouco do câmbio e do próprio preço dos alimentos. A gente contou com a sorte porque tivemos uma safra muito boa neste ano. Para o próximo, precisamos dessa estabilidade climática, não só para colher muitos alimentos, como também para gerar energia mais barata.
Qual o peso da disputa eleitoral?
Isso pode comprometer um pouco o câmbio. Acho que qualquer embaraço fiscal acaba se transformando em uma desvalorização cambial um pouco maior. Mas o mercado financeiro prevê câmbio estável para o ano que vem, sem grandes mexidas. Mas se de fato tiver um agravamento da crise fiscal, um comprometimento maior do PIB, além do que já foi, pode sim gerar alguma crise de confiança que se materializa numa moeda mais fraca.
Um impulso fiscal maior em ano eleitoral também deve pressionar a inflação?
Pode. Uma parte disso já começa em janeiro com a questão do imposto de renda. As pessoas vão comer mais, vão consumir mais. E isso já é um impulso na demanda. Então, se a gente vive um contexto de menor oferta por uma questão climática, talvez, que ainda não está prontamente no radar, isso pode frustrar a expectativa de termos uma inflação ainda mais baixa em 2026. Então, a gente vai depender do câmbio e do clima.
Como a saída do ministro Fernando Haddad da Fazenda pode afetar?
Deverá ser uma transferência para alguém de confiança. Agora, algum impacto sempre tem. Surgem as dúvidas em relação ao novo comandante, na linha de como ele vai conduzir. Tem alguma flutuação, mas isso vai depender de como o governo vai fazer essa transição. Quanto mais cedo anunciar e colocar em avaliação, menor o impacto.
O cenário externo pode ajudar a inflação de novo?
É incerto. Sobretudo com Trump ainda no poder. Ele toma decisões polêmicas o tempo todo. É muito difícil a gente entender qual é a direção que ele vai seguir. Ora ele é parceiro, ora ele não é. Depende um pouco de como se avalia que os Estados Unidos podem tirar vantagem de alguma relação.
Quais grupos tendem a aliviar e quais grupos tendem a pressionar a inflação em 2026?
Acho que alimentação é um que tende a pressionar, pesar mais. Já serviços e preços monitorados devem aliviar. A inflação deste ano vai vir mais baixa e a inflação do ano anterior sempre indexa serviços importantes do ano subsequente. Essa desaceleração que a gente teve em 2025 vai beneficiar a continuidade desse efeito em 2026, salvo imprevistos. Dado que a gente terminou bem em 2025, isso é sinal de que a gente também pode terminar bem em 2026, porque a nossa economia ainda é muito indexada.
Como isso será observado na vida das famílias?
É uma inflação menor, mas ainda é inflação. A nossa população é muito carente, com boa parte vivendo com dois, três salários mínimos. A alimentação é o que pesa para essas famílias. Se a alimentação volta a subir, isso aumenta o desconforto dessas famílias. Agora, de um modo geral, a família de classe média alta só vai ver uma troca de bastão. Sai um pouco de serviços e monitorados, vai um pouco para alimentos, mas alimentos impactam pouco o custo de vida dos mais ricos.
A meta atual conversa com a realidade do Brasil?
Acho que isso precisava ser analisado. Outros países também utilizam um sistema de metas nesse molde, mas têm uma desigualdade menor. Por exemplo, aqui no Brasil a alimentação compromete em média 18% do orçamento familiar. Em outros países, isso fica em 7%, 8%, 9%. A metade do que pesa aqui. Aqui qualquer movimento da alimentação pesa muito no IPCA. Então, poderíamos acompanhar as metas com os núcleos de inflação, que são aqueles produtos e serviços que, quando aumentam de preço, permanecem naquele patamar por mais tempo. É o que vai desenhar a tendência do IPCA para os próximos meses.
Isso é viável?
Temos várias medidas aqui no Brasil. O BC mesmo calcula e disponibiliza o resultado todo mês. Os núcleos suavizam os impactos temporários em torno do IPCA. Precisamos amadurecer um pouco e passar usá-los, quem sabe, como meta do que exatamente o IPCA, que é muito sujeito à volatilidade. Mas tudo é uma questão de transparência, porque o IPCA tem uma metodologia mais transparente, então isso aumenta a credibilidade em torno da política monetária. Usar um núcleo, que às vezes é uma medida que dependendo da metodologia nem todos entendem, pode gerar alguma desconfiança sobre esse instrumento. Mas os economistas estão aí para explicar e deixar isso mais claro para as pessoas.
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