A saga que levou um empreendedor social à concepção dos tênis que serão usados por voluntários da COP30 – feitos por uma fábrica de calçados gaúcha – tem tantos capítulos que não foram esgotados na já longa entrevista com Francisco Samonek, fundador da Seringô.
O paranaense que se aventurou na Região Norte e criou um ecossistema de bioeconomia teve de atuar até como mediador de conflitos familiares para chegar ao produto que será certificado pela empresa suíça que fabrica a tinta para impressão de 90% das cédula das moedas do planeta, incluindo dólar, euro e franco suíço, a Sicpa (saiba mais clicando aqui).
Conforme Samonek, ao perceber alta adesão mas baixa permanência em seu projeto de artesanato com látex natural extraído na Amazônia – uma das atividades que ajuda a manter a floresta em pé –, teve de reunir as famílias. Na conversa, depois de muita insistência, descobriu que os homens não gostavam da ausência das mulheres em casa. Na época, elas trabalhavam em um pavilhão separado.
O problema precisa ser encarado à sombra da realidade amazônica: as casas são muito distantes uma da outra e não há muita convivência além da família no dia a dia, fora de eventos nos pequenos centros comunitários da região. A solução, relata Samorek, foi criar a "unidade de produção familiar": os homens colhem o látex bem cedinho, e as mulheres trabalham no artesanato em suas próprias casas.
— O seringueiro tradicional trabalhava isolado, sozinho. A família não se envolvia na atividade. No Marajó, eram recorrentes agressões às mulheres, às crianças. Hoje, onde estamos trabalhando, as famílias se organizaram e as mulheres estão protegendo. Trouxe um benefício social enorme, além da receita e do benefício ambiental com a manutenção da floresta em pé.
Depois de solucionar muitas questões tão extravagantes quanto essa para quem não vive a realidade amazônica, Samonek chegou ao momento do lançamento "oficial" do tênis da sociobioeconomia – antes, já eram vendidos, mas de forma muito restrita. Cada par terá um código impresso com a tinta da Sicpa – a mesma do dólar e do euro. O objetivo é garantir proteção às patentes que o empresário desenvolveu, tanto para a matéria-prima "cernambi virgem ecológico" quanto ao processo socioambiental.
— O pessoal da Sicpa está aqui na COP ajudando a gente a divulgar o primeiro produto autenticado por eles, que antes só atuavam com dinheiro. Agora posso vender meu tênis tranquilamente no mercado europeu porque isso vai aferir a rastreabilidade do produto.
É um caso que ilustra o potencial da sociobioeconomia, ou seja, produção com impacto positivo social e ambiental.



