
Embora o governo brasileiro flerte com a ideia de formalizar o acordo entre Mercosul e União Europeia até o final do ano, surgiu uma nova pedra nesse caminho. Um dos acordos feitos pelo governo Trump com países latino-americanos foi com a Argentina. Assim que foi anunciado, surgiram especulações sobre eventual impacto no Mercosul. Para entender, é bom lembrar que uma das regras do bloco do qual o Brasil faz parte é que esse tipo de acerto com países não integrantes precisam ser referendados por todos.
Desde que o acordo entre Argentina e Estados Unidos foi anunciado, após reunião entre os chanceleres Pablo Quirno e Marco Rubio, ainda não foram revelados detalhes para saber com precisão o tamanho da ameaça ao Mercosul. Mas entidades empresariais argentinas já manifestaram inquietação.
A Câmara de Exportadores da República Argentina (Cera) afirmou que os que se sabe até agora "não permite avaliar como se compatibilizará com os compromissos" assumidos pela Argentina no Mercosul. Como a coluna relatou, em setembro a China havia substituído o Brasil como principal parceiro comercial da Argentina, na contramão do efeito desejado por Trump.
Em outubro, conforme a Câmara Argentina de Comércio e Serviços (CAC), o intercâmbio entre os dois países caiu mais 3,5%. O maior peso na queda foi das vendas argentinas ao Brasil, que despencaram 13,5% na comparação entre o mês passado e outubro de 2024, ficando estagnadas em relação a setembro deste ano. Já as compras de empresas brasileiras cresceu 5,8% ante outubro do ano passado, ainda assim 9,6% menores do que as do mês anterior.
Um dos problemas do acordo Argentina-EUA para o Mercosul é que prevê acesso preferencial ao mercado argentino a produtos americanos, como medicamentos, químicos, máquinas, equipamentos médicos e até "bens agrícolas" – falta detalhamento do que compreenderia. Na avaliação da Cera, isso poderia contrariar as regras do bloco, porque provavelmente não se restringem às 50 exceções previstas ao país na Tarifa Externa Comum (TEC).
Essa é uma característica essencial do Mercosul: todos os integrantes devem aplicar as mesmas tarifas para produtos importados de outros países. A regra é uma das mais consolidadas e prevê sanções em caso de descumprimento. É base, também, das negociações com a União Europeia. Ainda faltam detalhes, mas quem acompanha o tema de perto vê risco de que a pedra seja do tamanho que fecha o caminho.





