
Professor do departamento de economia da PUC-Rio desde 2003, Juliano Assunção se focava em desenvolvimento na perspectiva de como afeta a prosperidade das famílias e das empresas. Em 2011, Tom Heller, professor de Stanford, propôs criar uma organização para contribuir com a agenda de clima, com doação do bilionário George Soros. Hoje é também diretor-executivo da Climate Policy Initiative, que propôs um novo mecanismo para remunerar regeneração de áreas de vegetação por captura de carbono.
Qual a sua expectativa para a COP30 cercada de desafios?
Na agenda de clima, tendo a não focar em questões conjunturais. E os desafios do momento não causam transtornos nas emissões, que seguem crescendo. Ainda não conseguimos desenvolver estrutura capaz de conter as emissões na escala necessária. Na COP, o processo negocial avança em ritmo incompatível com a mudança do clima. Há outros círculos de debate de política pública até mais efetivos. Minha expectativa é de que seja possível, usando a capacidade da nossa diplomacia, chamar a atenção de que algo precisa ser feito de forma acelerada. A ideia da COP é de implementação, tentar achar espaço de diálogo para a ideia de que algo muito diferente precisa ser feito.
Por que "muito diferente"?
Com o aumento de emissões, há consequências gravíssimas e precisamos pensar em adaptação e criação de estruturas para lidar com perdas e danos. Há um assunto que o Brasil está bem posicionado, o do papel das florestas como capacidade de remoção de carbono em escala. Dado o atraso no freio à mudança do clima, precisamos acelerar o que está em nossas mãos, que é a remoção de carbono via restauro florestal. A COP30 pode ter resultado melhor do que o esperado. Estou otimista.
O que faz o CPI?
Nosso trabalho começa com políticas de combate ao desmatamento, que, a partir de 2004, provocaram redução expressiva na taxa na Amazônia, responsável por parte enorme das emissões. Migrou para agricultura e tópicos de infraestrutura. Temos abordagem econômica, com viés muito forte de desenvolvimento econômico. E nos disciplinamos para que todo o trabalho feito em parceria alcance alguém que possa dar consequência, independentemente da cor do governo eleito.
A floresta em pé responde por quase 1,3 bilhão de hectares em cerca de 90 países e armazena quase 600 bilhões de toneladas de carbono.
Como funciona o Mecanismo de Reversão de Desmatamento, lançado na pré-COP?
Na COP28, os países deliberaram que, até 2030, o desmatamento não deve ser apenas estancado, mas revertido. Isso envolve três questões relacionadas, mas diferentes. A floresta em pé responde por quase 1,3 bilhão de hectares em cerca de 90 países e armazena quase 600 bilhões de toneladas de carbono, o equivalente a um terço das emissões globais históricas acumuladas. É um tesouro. Depois, vem o desmatamento. Não precisamos de mais área para alimentar as pessoas. A produção agrícola tem crescido, em escala global, mais com ganho de produtividade do que com expansão de área. Mesmo assim, desmatamos mais de 10 milhões de hectares por ano na última década, o que não faz sentido. O terceiro elemento é a oportunidade.
Qual seria?
Desmatamos 180 milhões de hectares de 2001 até agora no mundo. Mas estimamos que seja possível capturar 49 bilhões de toneladas de carbono nos 180 milhões de hectares desmatados. Cada país tem uma configuração distinta, mas, no Brasil, há tudo: muita floresta em pé, muito desmatamento e muito a ser restaurado. Brinco que somos o Michael Phelps da agenda de floresta, ganhamos em todas as categorias.
Há uma lacuna para restauro florestal em escala.
A proposta tem formato novo?
As estruturas que temos hoje são o REDD+, associado à redução do desmatamento, que é o modelo do Fundo Amazônia no Brasil. Para floresta em pé, o Brasil tem a proposta do Tropical Forest Forever Facility (TFFF, Fundo Florestas Tropicais para Sempre), com ideia de pagar US$ 4 por hectare de floresta em pé por ano. Há uma lacuna para restauro florestal em escala. O Mecanismo de Reversão do Desmatamento tem foco em crédito de restauro de carbono. A cada ano, computa a quantidade de carbono capturado pelo restauro florestal, deduz o emitido por desmatamento e atividade agrícola, e a jurisdição (Estado, país) é remunerada pela contribuição líquida. Seria um acordo entre um comprador que pode ser uma empresa num país de alta renda, e um país que poderia ser o Brasil ou uma província na Indonésia.
Há estimativa de valor?
Estamos usando como referência US$ 50 por tonelada de carbono capturada na base líquida. É um preço baixo, o mercado europeu de emissões negocia entre US$ 80 e US$ 90. As florestas tropicais do mundo têm a possibilidade de capturar algo como 2 bilhões de toneladas de carbono por ano nos primeiros cinco anos. Estamos falando de US$ 100 bilhões, uma quantidade de dinheiro extraordinária. No caso do Brasil, respondemos por cerca de um quarto do potencial. Seriam US$ 25 bilhões para o Brasil. É muito transformador.
Precisa de um mundo preocupado com o clima que aceite pagar preços decentes pelos serviços associados a esse tema.
Em que tempo?
Na nossa estimativa, colocar o processo de pé é muito rápido. O produto está pronto. Precisamos ter uma demanda que não é óbvia. Precisa de um mundo preocupado com o clima que aceite pagar preços decentes pelos serviços associados a esse tema. A regeneração natural na Amazônia já acontece em escala. Temos 5 milhões de hectares na Amazônia que estão no processo de regeneração há cerca de seis anos, de acordo com estimativa do Imazon, sem nenhuma política pública. As áreas foram desmatadas, mas não houve interesse em manter e a floresta volta, com força.
*Colaborou João Pedro Cecchini



