
A isenção da "tarifa recíproca" – o nome é um equívoco tão grande quando a medida, que não tem nada de mútuo – não resolve o problema dos exportadores brasileiros, nem sequer os de produtos contemplados, como carne e café, os que mais pesam na balança comercial entre os dois países. O caso do café é exemplar: o imposto de importação caiu de 50% para 40% no caso do Brasil, mas concorrentes como Colômbia e Vietnã passaram a ter tarifa zero.
— Piorou para o Brasil — chegou a afirmar o diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Marcos Matos.
Mas se não resolve o problema brasileiro, a medida também não soluciona por completo o impasse de Trump. Ao menos até agosto, quando entrou em vigor o tarifaço de 50% imposto ao Brasil, o café nacional respondia por 30% das importações americanas. Colômbia e Vietnã eram o segundo e o terceiro colocados.
A Colômbia já exporta para os EUA 40% de sua produção total. Ao mesmo tempo, um dado chamou atenção de quem olhou os dados de vendas ao Exterior do Brasil em setembro: um salto de 567% nas vendas nacionais de café aos colombianos. Ou é triangulação ou é escassez doméstica. No caso do Vietnã, até especialistas do país avaliam que seriam necessários de um a dois anos para poder aproveitar a oportunidade da diferença tarifária.
E se no caso do café existem dúvidas sobre o alcance da medida de Trump, são maiores para casos tão distintos quanto carne e açaí. Ainda antes do tarifaço, a Argentina havia aumentado a compra de carnes do Brasil para o nível mais alto de 2019. É resultado do aumento de preços interno – em junho, a carne subira 53% em relação ao mesmo mês do ano anterior, muito acima da inflação geral, de 39% na mesma base de comparação.
Um dos acordos de Trump com seu aliado Javier Milei prevê o aumento de compra de carne da Argentina, que agora estão zeradas. Mas o preço está em mais alto do que o do Brasil, e o movimento já provocou protestos barulhentos dos produtores americanos. Difícil obter dessa equação o resultado esperado de baixa de preços para o consumidor dos EUA.
O açaí está listado na baixa de tarifa da última sexta-feira (14). Todo o consumo de "amazonian berry" – como o produto é chamado por lá – é do Brasil, único país exportador. Nesse caso, deixa de custar 50% a mais, mas ainda está 40% mais caro. Claro, o efeito na inflação geral é menor, mas na satisfação do eleitor...
E além disso, como só houve redução de alíquotas para alimentos, a pressão de alta de preços segue em diferentes segmentos. Em entrevista à coluna, o CEO da Stihl, Michael Traub, informou que a empresa teve de fazer algo raro nos EUA: dois aumentos em um só ano. Não deve ser um caso isolado, o que significa que podem vir novos recuos. E talvez Trump fique mais sensível à negociação com o Brasil.




