
A Stihl, multinacional alemã com unidade em São Leopoldo que deve alcançar receita de R$ 4 bilhões neste ano, transformou neste ano a unidade do Brasil em centro dos negócios de toda a América Latina. É uma empresa familiar, mas bilionária em moeda forte. No ano passado, teve receita de 5,3 bilhões de euros. Tem prática de concentrar a produção de alguns componentes em um país para abastecer suas sete unidades de produção no mundo. No Brasil, são os cilindros, que desde agosto enfrentam o tarifaço de 50%. Na Suíça, as correntes eram afetadas por alíquota de 39% até sexta-feira (14), quando um acordo sinalizou baixa para 15%. CEO global da Stihl, o alemão Michael Traub fez há poucos dias visitas a três unidades das Américas – Brasil, EUA e Argentina, onde completou 25 anos. Na passagem por Porto Alegre, conversou com a coluna e explicou por que fala português tão bem.
Como está a Stihl no Brasil?
A empresa no Brasil agora tem esse novo papel de cuidar da América Latina. E vai para uma fase de crescimento forte. Nosso cliente pode escolher se quer equipamentos a bateria ou a combustão. A América Latina tem papel de crescer em combustão. A participação no faturamento mundial da Stihl de 14%. Nosso maior mercado é América do Norte, o segundo é a Europa e o terceiro é a América Latina. Vou embora daqui com um sorriso bem grande.
Há previsão de novos investimentos para apoiar esse crescimento?
Estão sendo feitos, teremos novas linhas que avaliamos, com produtos muito interessantes, inovadores. Também tem projetos de pesquisa e desenvolvimento, porque a turma daqui não só cuida do Brasil, também tem um papel mundial no desenvolvimento de produtos para mercados emergentes. Temos 80 pessoas aqui só em P&D, 10% do pessoal mundial de desenvolvimento está aqui no Brasil.
Na Stihl, acreditamos em mercados livres. Temos 44 subsidiárias no mundo, distribuídos em 160 países. Só funciona porque há mercados livres. Celebramos 100 anos em 2026, e governos trocam cada quatro.
Os cilindros de motores dos produtos são feitos só no Brasil e estão sujeitos a tarifa de 50%. Qual é o impacto?
Tudo é validado com a matriz, mas o desenvolvimento, os testes e a produção são só no Brasil, é a única fábrica no mundo que produz cilindro para nós. Na Stihl, acreditamos em mercados livres. Temos 44 subsidiárias no mundo, distribuídos em 160 países. Só funciona porque há mercados livres. Celebramos 100 anos em 2026, e governos trocam cada quatro. Nada é para sempre. Mas o aumento de tarifas a 50% significa que o produto final nos EUA teve de ser aumentado em 3%. Confiamos no Brasil para essa produção e não vamos mudar para os EUA. Não vamos.
Seja qual for o resultado das negociações entre Brasil e EUA?
Falei muito com representantes do governo nos EUA. Temos uma grande fábrica, com 3 mil funcionários, e represento a Stihl em várias instituições americanas. Nosso conteúdo local é de 60%, mas importamos aço, baterias, semicondutores. Significa que há pressão muito alta para aumentar o preço. Mas todos os políticos com que falei têm a visão que tarifas são uma coisa boa. No final, o consumidor vai pagar a tarifa. Falei com muitos clientes nos EUA. Perguntaram se não temos produtividade para não aumentar o preço e por que não levamos mais produção para os EUA. Expliquei que, em semicondutores e baterias, não dá.
Já tivemos dois aumentos de preço por causa de tarifa, em 7% em julho e agora 4% em novembro. É algo que nunca fizemos, dois reajustes em um ano nos EUA.
Esse risco de aumento de preço não é avaliado por pessoas do governo americano?
Os americanos vão ver o impacto total no próximo ano. Sempre atrasa. Agora todo mundo está avaliando. Já tivemos dois aumentos de preço por causa de tarifa, em 7% em julho e agora 4% em novembro. É algo que nunca fizemos, dois reajustes em um ano nos EUA. E provavelmente haverá mais. O próximo será um ano muito desafiador.
Espera algo das negociações com o Brasil?
O Brasil não merece ser tratado desta forma, sendo, como país, um aliado muito forte do mundo ocidental. Por isso, 50% de tarifa não é um número que eu entenda. E o Brasil não é o único país que nos preocupa em termos de tarifa, temos na Suíça uma bela fábrica para correntes, também única no mundo. Fui lá e disse: 'É na Suíça e vai ficar na Suíça'. E os 15% cobrados da União Europeia também não não pouca coisa. O mundo cresceu muito porque os impostos, as tarifas foram retiradas. Com cada mercado com a sua especialização, por isso funciona. Isso se faz melhor no Brasil, aquilo se faz melhor na Suíça. E tudo junto dá uma redução de custo para a indústria como um todo.
Estamos satisfeitos com este ano, mas nos preparamos para um 2026 muito difícil, porque o impacto de tudo o que está acontecendo só vamos ver no ano que vem.
A Stihl abriu fábrica na Romênia por ver custos muito altos na Alemanha. A expansão tende a ser global, a despeito do crescente protecionismo?
Estamos crescendo esse ano, entre 4% e 5% em nível mundial. Estamos satisfeitos com o ano, mas nos preparamos para um 2026 muito difícil, porque o impacto de tudo o que está acontecendo só vamos ver no ano que vem. Inauguramos na Romênia em 15 de outubro e vamos aumentar a produção. Investimos 120 milhões de euros (R$ 732 milhões). Também temos uma grande fábrica na China, que produz 3,5 milhões de unidades no ano. Tem um time muito, muito motivado. Sempre falamos sobre 'China speed' (rapidez da China). Essa turma vai ter o papel de desenvolver software. Vamos produzir lá os cortadores de grama robôs. Acreditamos que em 2030, 2040, o robô vai ser a principal forma de cortar grama nos mercados desenvolvidos. É a mesma tecnologia do aspirador-robô.
É essencial estar na China?
Acreditamos que só na China nós temos as condições para desenvolver os produtos para a próxima geração. Os chineses são concentrados, rápidos e produtivos. Na Europa, a sociedade achava que velocidade não era importante, mas sim perfeição. Aprendemos agora que dá para ter perfeição com velocidade. Morei no Brasil e sempre adorei que os brasileiros têm alta criatividade. Nossas fábricas na Alemanha fazem produtos altamente profissionais. O Brasil produz médios. A China faz produtos de entrada, com alto volume e preço mais baixo.
Onde é a unidade na China?
Nossa fábrica é em Xingdao (Qingdao é outra grafia aceita), e temos muito bons contatos com o governo de cidade, governo estadual. É uma cidade de 10 milhões de habitantes, e o prefeito me disse que todo mundo gosta de lá porque é uma cidade pequena. E lá existe uma cultura alemã, tem cerveja, um pequenos bairro alemão (houve um período de concessão de 1898 a 1914). Ganhamos o terreno mas temos de ocupar e construir ou devolver a área.
Por que a Stihl é grande vendedora de motosserras e tem forte foco ambiental?
Temos orientação muito forte para reduzir CO2. Estamos nos esforçando para alcançar a neutralidade climática e fazemos parte do SPTi (Iniciativa para Metas Baseadas na Ciência, na sigla em inglês). A Stihl nasceu com motosserras para facilitar a vida do homem na floresta, mas hoje na Europa já se planta árvores para colher. No Brasil, começamos com motosserras e hoje a área florestal apenas representa só 6% das vendas. A terceira geração da família Stihl tem orientação muito forte para sustentabilidade.
E como um executivo alemão fala um português tão fluente?
Em 2004, meu chefe na Bosch me pediu para vir ao Brasil e trocar o negócio da América Latina com fábricas no Brasil, Peru e México. Disse que não falava português. Vim e quase chorei, achei que nunca, nunca, nunca, iria aprender essa língua. É muito difícil. Mas a empresa me ajudou com um curso intensivo. Oito semanas. Oito horas por dia, sete dias por semana.


