
Crescer por 20 trimestres seguidos exige uma série de habilidades. Uma é saber se posicionar entre os tantos desafios de empreender. Nesta quinta-feira (23), Pedro Bartelle, CEO da Vulcabras, dona das marcas Olympikus, Under Armour e Mizuno no Brasil, vai receber o prêmio Equilibrista, concedido anualmente pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Rio Grande do Sul (Ibef-RS). A gigante calçadista com unidade em Parobé "está no seu melhor momento", diz Bartelle, mesmo com perda de competitividade em relação à produção asiática.
Como a Vulcabras é afetada pelo tarifaço?
A exportação para o mercado americano é quase zero. Somos competitivos na América Latina, começamos um trabalho agora na Europa, ainda muito mais de posicionamento. A grande preocupação do setor é entender para onde irá a produção asiática se não entrar nos Estados Unidos. Ainda não sentimos o efeito, aprendemos a trabalhar com produtos subsidiados.
A competição asiática segue um desafio?
Perdemos competitividade, porque os nossos custos são maiores do que dos asiáticos. Calçado elaborado, como um tênis, tem custo muito grande de mão de obra. Os asiáticos chegam a pagar um terço ou um quarto do custo de mão de obra que temos, fora outros subsídios. O Brasil tem tarifa de importação de 35% para calçados. Temos defendido medidas que tragam mais competitividade para a indústria calçadista brasileira. Hoje, o único país relevante fora da Ásia em produção de calçados é o Brasil. O setor é o quinto maior empregador da indústria de transformação. Por falta de competitividade, e não de produtividade, o Brasil está mais voltado ao mercado interno. Defendemos que o governo dê condições igualitárias.
A Vulcabras é responsável pela gestão brasileira de uma marca de origem americana, a Under Armour. Houve alguma mudança na relação a partir do tarifaço?
Não. A preocupação da Under Armour internacional é de abastecimento, porque compra produtos da Ásia, e a Ásia está com tarifas também bastante altas. O grande negócio de calçados no Brasil é o mercado interno. O Brasil não tem custos para fabricar produtos elaborados e exportar para os EUA, porque incide quantidade muito grande de mão de obra. Mas temos uma parceria muito boa com a Under Armour. Nosso centro de desenvolvimento de tecnologia em Parobé, que é o maior da América Latina para calçados, é um hub para a Under Armour também. Temos a parceria no desenvolvimento de alguns produtos. Parte exportamos, outra a Under Armour acaba pegando nosso desenvolvimento técnico e criativo para colocar nas linhas da marca. Então, não estamos exportando só produtos, mas também a inteligência do desenvolvimento que existe no Vale dos Sinos e no do Paranhana.
A Vulcabras cresce há 20 trimestres seguidos. Qual a fórmula?
A cada trimestre, nosso crescimento percentual é maior. Estamos crescendo em cima do crescimento. Passamos por uma reestruturação muito dura, pouco mais de 10 anos atrás, o que nos trouxe uma casca de tartaruga, de fato, bem forte. Aprendemos a ser muito eficientes, muito austeros nos custos e tivemos de inventar um processo de trabalho para competir com as marcas internacionais. Dominamos todas as etapas do processo e somos completamente verticalizados. A Vulcabras cria os produtos, desenvolve seus materiais, produz e entrega direto ao consumidor ou aos clientes com rapidez. Cerca de 92% dos nossos insumos são brasileiros.
Qual o efeito da febre das corridas de rua na empresa?
A Olympikus faz 50 anos neste ano. Há seis, identificamos que a corrida ia crescer muito. As pessoas estão dando mais importância a seu preparo físico. Desafiamos uma marca brasileira a competir não só no esporte, mas na alta performance esportiva. Então, criamos a linha Corre. Estamos no sexto ano, e é o tênis mais utilizado pelos corredores brasileiros.
Hoje, a linha Corre representa quanto do faturamento e como a Vulcabras pretende expandi-la?
Olympikus é o nosso carro-chefe, representa pouco mais da metade. E o faturamento da linha Corre já ultrapassa 20% do faturamento da Olympikus. Vamos expandindo a coleção, tanto na base da pirâmide quanto no meio e um pouco lá em cima. Pretendemos trazer produtos mais tecnológicos. A produção asiática é mais competitiva nos custos, mas não é mais produtiva, não é mais inteligente, não tem melhores recursos e nem melhor mão de obra do que temos no Brasil.
Novos modelos significam investimento na unidade de Parobé?
O calçado esportivo é realmente o mais complexo, é por onde entram as tecnologias. Os investimentos feitos em Parobé nos últimos cinco anos superam R$ 100 milhões. A Vulcabras está no seu melhor momento e está observando no mercado novas marcas, novos negócios dentro do seu nicho de calçados e de esportes.
*Colaborou João Pedro Cecchini





