
Só o fato de ter ocorrido já permite aplicar à teleconferência entre os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e o dos Estados Unidos, Donald Trump, a classificação de "ótima notícia". Foi o primeiro contato com mais de 39 segundos — medidos pelo americano — entre os mandatários das duas maiores economias das Américas. A abertura desse canal era uma reivindicação de 11 a cada 10 exportadores atingidos pelo tarifaço. O absurdo era que não tivesse havido qualquer contato até a Assembleia Geral da ONU, uma responsabilidade compartilhada entre os dois.
Na sucinta nota — para o tamanho da expectativa — publicada pelo Palácio do Planalto, há poucos indícios de sucesso absoluto. Também seria pouco recomendável esperar resultados concretos dessa primeiro conversa estruturada. O pouco revelado no texto tem pontos mais e menos promissores. Um dos sinais mais animadores é o fato de que Lula "se dispôs a viajar aos Estados Unidos". Dado o seu próprio retrospecto, é um grande avanço. Também é positivo que - sempre segundo a nota — o elefante na loja de cristais já tenha sido nominado:
"O presidente Lula descreveu o contato como uma oportunidade para a restauração das relações amigáveis de 201 anos entre as duas maiores democracias do Ocidente. Recordou que o Brasil é um dos três países do G20 com quem os Estados Unidos mantêm superávit na balança de bens e serviços. Solicitou a retirada da sobretaxa de 40% imposta a produtos nacionais e das medidas restritivas aplicadas contra autoridades brasileiras."
Entre os pontos menos animadores, mas também menos contornáveis, está a definição do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, como responsável por "dar sequência às negociações". Como o Departamento de Estado nos EUA equivale ao Ministério das Relações Exteriores no Brasil, é uma "escolha natural". Mas não seria impossível indicar, por exemplo, o secretário de Comércio, Howard Lutnick. Rubio é mais inclinado à polarização política do que a uma avaliação técnica do problema. É, ainda, um dos integrantes da Casa Branca a quem os antipatriotas que defenderam adoção do tarifaço têm acesso, ainda que indireto.
Segundo interlocutores de negociadores brasileiros, Lutnick estaria mais sensível a uma revisão do tarifaço de 50% sobre o Brasil — para lembrar, os 10% de abril mais os 40% adicionais de agosto. O motivo não está vinculado à diplomacia nem ao multilateralismo. Há relatos de que as barreiras à importação já estão se refletindo na inflação americana, como previsto.
Também não há garantia de uma conversa presencial futura. O encontro no final deste mês em Kuala Lumpur, na Malásia, durante a reunião de cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), conforme a nota, foi apenas "aventado" por Lula. Apesar dos apesares, alguma tentativa de dar racionalidade econômica à relação Brasil-EUA é mesmo uma ótima notícia.






