
Há quase exatos dois meses, uma operação da Polícia Federal desmontou um esquema criminoso que controlava de postos de combustíveis a usinas de etanol, alcançando infiltração até na Faria Lima, símbolo do mercado financeiro no Brasil. Nenhum tiro foi disparado.
Nesta quarta-feira (29), o Brasil acorda assombrado com a descoberta e entrega de corpos não contabilizados na intervenção policial mais letal da história do Rio de Janeiro, que já acumulava 64 mortes. Até agora, a estimativa de vítimas fatais está ao redor de 128.
É claro que as duas mobilizações têm objetivo e caráter diferentes. A que foi deflagrada nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio, visava também a retomada de territórios ocupados pelo narcotráfico, onde o Estado, no sentido de poder público, não podia entrar. Era uma ocupação antiga. O caminho foi aberto a bala, provocando danos colaterais a famílias, escolas, negócios.
Foi um combate desorganizado ao crime organizado. Uma das rotas de fuga usadas pelos criminosos foi a mesma empregada há 15 anos, em outra tentativa de retomada de território. Era previsível. Mesmo assim, ficou desimpedida. É óbvio que é preciso evitar que cidadãos brasileiros sejam obrigados a prestar contas a narcotraficantes e não ao poder institucional, mas a repetição piorada dessas cenas é a prova de que essa não é a forma mais eficiente.
Impedir que criminosos ocupem áreas e de forma a obstruir o acesso institucional é uma questão de soberania nacional. Fazer isso no varejo, com alto risco inclusive para quem é vítima dessa circunstância, é uma fórmula repetida há décadas, com resultados cada vez piores. Essa tragédia foi grande demais para ser página virada nos dias seguintes. Precisa desencadear medidas que desemboquem em um acordo mínimo entre a União e Estados que passa pelo projeto Antifacção, ainda que com ajustes.




