
Em dificuldade para frear a disparada do dólar mesmo após a oficialização de um swap cambial (troca de moedas) de US$ 20 bilhões com os Estados Unidos, o governo da Argentina enfrenta agora uma crise de governo que tem, no centro, o apoio de Donald Trump. A renúncia do ministro de Relações Exteriores, Gerardo Whertein, expôs a divisão interna da equipe do presidente Javier Milei às vésperas das eleições parlamentares do próximo domingo.
A crise interna era tão profunda que próprio Milei havia admitido uma reforma ministerial para depois do pleito. Mas Whertein deu o que os argentinos chamam de "portazo", ou seja, saiu batendo a porta, sem se importar com o impacto da exposição pública dos desentendimentos. Em represália, "vazaram" informações de que até tradutor faltou no encontro entre Milei e Trump que, agora, é chamado publicamente de fracasso, atribuído a Whertein.
Mesmo com ajuda institucional e financeira dos EUA – o Tesouro americano está comprando pesos e vendendo dólares há semanas, em atuação raríssima –, a cotação segue acima de 1,5 mil pesos, encostada no teto da banda cambial negociada com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A estimativa é de que o BC da Argentina e o Tesouro americano tenham ofertado US$ 5 bilhões nos últimos três meses para tentar evitar o descontrole – muito para um mercado do tamanho do argentino. E sem sucesso.
Na quarta-feira (22), os depósitos privados em dólares chegaram ao maior nível em 24 anos, ao redor de US$ 35 bilhões. Conforme o site especializado em economia Ámbito, é um recorde desde os meses anteriores ao fim da conversibilidade (um peso igual a um dólar), no início de 2022.
A escalada começou depois da retirada das restrições – o chamado "cepo cambial" –, em abril, e se intensificou com a derrota do partido de Milei nas eleições na província de Buenos Aires, a maior do país. O assunto foi manchete da edição impressa do jornal britânico Financial Times:
"Investidores apostam que a Argentina vai desvalorizar apesar de resgate de US$ 40 bilhões dos EUA"

Com a irmã que é seu braço-direito acusada de corrupção e seu principal candidato às eleições parlamentares forçado a renunciar por acusações de ligação com um narcotraficante já deportado para os EUA, Milei achou que seria boa ideia protagonizar um show de rock no início do mês. Vestido com jaqueta de couro preta, cantou músicas de Charly García e Los Ratones Paranoicos e encerrou dizendo:
— Vou tomar banho e me vestir de presidente.
Com as camadas de baixa renda recorrendo a todo tipo de recurso para sobreviver, talvez o figurino oficial de Milei esteja ficando apertado.





