
Donald Trump não gosta de instituições multilaterais. Portanto, não deve perder um segundo de sono por falar na assembleia-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em um momento muito delicado para sua imagem.
Depois de anunciar publicamente sua disposição de fazer uma "caça às bruxas" – ameaçou cassar a licença de redes de TV que cumpram seu dever, ou seja, criticar o governo –, já colocou em prática a ofensiva.
Na sexta-feira (19) à noite, o Pentágono (prédio que simboliza o Departamento de Guerra, novo nome da pasta que tem status de ministério e era conhecida com Departamento de Defesa) anunciou que vai exigir aprovação prévia de conteúdo publicado por jornalistas credenciados, seja "classificada" (com dados confidenciais) ou não. Caso se recusem, serão descredenciados.
No discurso, o argumento é parecido com o da "segurança nacional", que no Brasil inspirou censura prévia nos anos de ditaduras. Afinal, é disso que se trata: o atual governo da maior democracia do planeta está adotando uma medida autocrática. E é seu presidente que vai aparecer na maior solenidade multilateral da instituição que ajudou o mundo a viver em paz – ao menos relativa – depois da Segunda Guerra Mundial.
Presidente do Clube Nacional de Imprensa de Washington, Mike Balsamo expôs a consequência:
— Se as notícias sobre nossas forças armadas devem ser aprovadas primeiro pelo governo, o público já não recebe informação independente.
A aparente vocação autocrática de Trump é reforçada pela nova aplicação da Lei Magnitsky – na origem, destinada a terroristas, narcotraficantes, corruptos e a quem atenta contra a democracia (pois é) – à esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
As restrições impostas a Viviane Barci de Moraes só têm precedente nas destinadas ao próprio ministro – uma clara tentativa de intervenção sobre um poder independente de uma república. Enquanto isso, Vladimir Putin continua "errando o alvo" e espalhando drones na Estônia e na Polônia. Como todos os valentões, Trump aperta o gatilho com mais facilidade sobre quem não tem armas do mesmo calibre para responder.



