
Nas ruas de grandes cidades, a PEC da Blindagem virou "PEC da Bandidagem" no domingo. Em uma das manifestações, o Congresso foi chamado de "inimigo do povo", como mostra a imagem acima. Foi uma resposta rápida à aprovação de regras que só atendem aos interesses de deputados que têm de prestar contas à Justiça: no final de semana seguinte. As marchas contra o desatino que tomou conta de boa parte dos parlamentares brasileiros focam embaladas com versos entranhados na cultura do país.
— Brasil, mostra a tua cara, quero ver quem paga para a gente ficar assim. Brasil, qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim — entoou a multidão ecoando o tema da novela Vale Tudo, que no nome e no assunto mostra que o passado sempre parece nos esperar na volta da esquina.
— Enquanto os homens exercem seus podres poderes, motos e fuscas avançam os sinais vermelhos e perdem os verdes, somos uns boçais — repetiu Caetano Veloso, indagando se essa "estúpida retórica terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos".
— Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão — foi o resumo cantado por milhares em uníssono.
Será que com tantas explicações, por tantas vozes, deu para entender o tamanho da rejeição que provoca a aprovação de leis que garantem impunidade para trás e para a frente? Desde sexta-feira (19), deputados que contribuíram com seu voto para a aprovação da PEC da Blindagem na Câmara foram às redes sociais pedir desculpas a seus eleitores. Para merecer o perdão, o que podem fazer? Retirar o voto? Isso não é mais possível.
O que pode ser feito, sim, é fechar a porteira para a bandidagem no Senado. O presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da chamada "casa revisora" do Senado, Otto Alencar (PSD-BA), já prometeu pautar o assunto na próxima reunião do colegiado, marcada para quarta-feira (24). Depois de classificar a PEC como "murro na barriga e tapa na cara do eleitor", Alencar prometeu: vai pautar "para sepultar de vez esse assunto no Senado".
Fechar a pista livre para a impunidade em um país que luta para conter o avanço do crime organizado tem essa urgência e precisa agora ganhar prioridade no Senado. Antes, havia temas mais importantes para discutir. Mas a troca do dever de representar a população pela disposição de barrar investigações foi tão dilacerante que agora, antes de mais nada, é preciso recolocar os parlamentares no seu devido lugar.





