
A 10ª manifestação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) teve um peso diferente. Desta vez, ocupou o púlpito como o líder mundial que mais desafia Donald Trump, como definiu o jornal americano The New York Times (veja aqui). E o brasileiro fez questão de envergar esse figurino, ainda que não tenha citado o nome do presidente dos Estados Unidos. Não só no conteúdo, também na forma, que não escondeu irritação.
Começou reiterando compromisso com multilateralismo e da soberania, dois conceitos solenemente ignorados pelo atual presidente dos EUA. Repetiu várias vezes as expressões "sanções arbitrárias" e "intervenções unilaterais".
— Mesmo sob ataques sem precedentes, o Brasil optou por resistir (...). Não há justificativas para as medidas unilaterais e arbitrárias contra as nossas instituições e a nossa economia. Agressão contra a independência do poder Judiciário é inaceitável — foi um dos trechos mais fortes.
Apesar da contundência, Lula fez um pequeno aceno ao líder que o sucedeu no púlpito. Disse que o "encontro no Alasca" suscitou "esperança de uma saída negociada". Como se sabe, a reunião entre Trump e o presidente da Rússia, Vladimir Putin terminou sem acordo, por isso a frase despertou atenção. Pode ter sido um afago mais ao russo do que ao americano, mas como os dois se envolveram, alcançou Trump.
Lula afirmou que existe um paralelo entre a crise do multilateralismo e o enfraquecimento da democracia:
— O autoritarismo se fortalece quando nos omitimos frente a arbitrariedades. Quando a sociedade internacional vacila na defesa da paz, da soberania e do direito, as consequências são trágicas — associou o presidente brasileiro.
Diante de Marco Rubio, secretário de Estado, e Scott Bessent, secretário do Tesouro, integrantes do governo Trump que fizeram ameaças ou justificaram medidas contra o Brasil ou agentes públicos brasileiros, Lula defendeu em fórum internacional o processo que foi alvo de retaliações:
— Há poucos dias, e pela primeira vez em 525 anos de nossa história, um ex-chefe de Estado foi condenado por atentar contra o Estado Democrático de Direito. Foi investigado, indiciado, julgado e responsabilizado pelos seus atos em um processo minucioso. Teve amplo direito de defesa, prerrogativa que as ditaduras negam às suas vítimas.
E foi, enfim, mais equilibrado em sua defesa da chamada "solução de dois Estados", que passa pelo reconhecimento da Palestina. Reafirmou que "os atentados terroristas perpetrados pelo Hamas são indefensáveis sob qualquer ângulo", mas tomou o cuidado de expressar "admiração aos judeus que, dentro e fora de Israel, se opõem a essa punição coletiva (o massacre em Gaza)".




