
Protagonista de corrida pelo título de "maior fintech do mundo" – que tirou da Nubank no início deste mês, com avalição de US$ 75 bilhões –, a britânica Revolut quer, mesmo, ser banco. Quando chegou ao Brasil, em 2023, escolheu um CEO com vasta experiência no sistema financeiro nacional: Glauber Mota. Com passagens por Itaú e BTG Pactual, o executivo adotou o figurino de startup – sem terno, gravata e abotoadura, brinca – mas mantém a perspectiva de que segurança e confiança são essenciais. Nesta semana, participa da Semana Caldeira, da qual a RBS é media partner. Lá, também vai representar a Harvard Angels, formada por ex-alunos da Harvard no Brasil, com objetivo de promover oportunidades para as startups do ecossistema local.
A Revolut disputa ser a "maior fintech" do mundo?
Essa percepção é mais externa do que interna. A Revolut é direcionada por produtos, menos pela competição. Queremos o melhor produto para o máximo de pessoas possível. Para isso, não precisa tomar a participação do competidor. Nunca participei de reunião em que o tema tenha sido esse. Precisamos ter um negócio escalável e aproveitar boas práticas ao redor do mundo. E o Brasil é um mercado especial até por ter outro competidor muito grande que, de certa forma, abriu portas para nós, porque foi pioneiro.
A Revolut tem pouco tempo no Brasil, mas longa trajetória no Exterior, não?
Sim, começou em 2015 na Europa. Eu era cliente da Revolut já em 2017, quando morei na Suíça. E quando voltei ao Brasil, a Revolut foi um benchmark. Então, desenvolver a própria Revolut, de que já era fã, no num mercado que é, digamos, o quente do mundo para as grandes fintechs é um desafio e um privilégio.
O Brasil é referência de infraestrutura de pagamentos instantâneos.
Como foi essa evolução de cliente a líder dos negócios no Brasil?
Eu morava na Suíça, trabalhava no BTG, que havia comprado essa operação. Como tudo é muito caro lá, fazia compras na Itália e tinha de trocar francos suíços por euros. Então, no dia a dia, usava a Revolut, por mais que eu fosse banqueiro, tivesse um private banking (risos). Depois, voltei ao Brasil e o BTG quis lançar um banco de varejo digital. Participei desse processo desde o começo e, para aprender, fui fazer benchmarking em várias empresas, entre as quais a Revolut. Dois anos depois, eles decidem vir para o Brasil e me convidarm para o projeto.
Em quantos países e com quantas moedas a Revolut opera?
Hoje, são cerca de 40 países, em diferentes estágios de maturidade. A Revolut já é banco em cerca de 30. E vai se tornar banco no futuro, porque é o nosso objetivo em todos os países. Temos cerca de 30 pockets (em diferentes moedas, os "potinhos" que agora surgem em bancos nacionais). Mas pode usar em qualquer país porque fazemos conversão instantânea. Na prática, funciona em qualquer lugar.
A Revolut vê o Brasil como "mercado mais quente do mundo"?
Há fatores que colocam o Brasil no mapa de maneira prioritária e relevante. Um é o tamanho, são 200 milhões de habitantes com mercado provado para o mundo digital. A competição, seja o roxinho, o verdinho, o amarelinho, o pretinho, o laranjinha, tem uma variação de 20 a 120 milhões de clientes. Se captarmos algo nesse intervalo, já vai ser maior que muitos países da Europa. O brasileiro ainda usa mais de seis aplicativos, em média, para questões financeiras, e temos capacidade de fazer tudo num lugar só. Por fim, o Brasil é referência de infraestrutura de pagamentos instantâneos.
Ainda que sejamos conhecidos como fintech, por sermos mais descolados, somos banco, na verdade.
Pelo Pix?
Sim, não é só pagamento rápido, é uma plataforma de oportunidades. Viajo pelo mundo, estava na Arábia Saudita na semana passada, agora estou em Londres, vou para os Estados Unidos na próxima semana. E sempre falo de Brasil e de Pix, porque viraram referência. O Brasil é mais moderno do que a grande maioria em tecnologia e infraestrutura de pagamentos.
Houve turbulência com hackers e fintechs usadas pelo crime organizado?
Causa preocupação no sentido de saber que tem gente mal intencionada. Mas não teve qualquer repercussão relacionada a nós na operação na Faria Lima. E a Revolut optou por não contratar infraestrutura de terceiros, que foram atacadas por hackers. Ainda que sejamos conhecidos como fintech, por sermos mais descolados, somos banco, na verdade. A Revolut é regulada em todas as instituições nos mais altos padrões de segurança e compliance. E seremos banco em algum momento no futuro, porque faz parte da nossa estratégia de crescimento. Não queremos nos posicionar como uma alternativa não bancária. Somos banco e vamos ser banco. Onde não é, vai ser.
Fintech começa com disrupção, depois precisa de regulação?
Aprendemos que ir à margem da regulação pode parecer interessante no comecinho, mas não é escalável. É uma decisão estratégica nossa ir direto para o mais alto padrão. Isso traz percepção de segurança para o cliente, o que é ótimo, porque somos um novo entrante na maioria dos lugares. A gente não está brincando, a gente é sério. Depois, nos obriga a ter o mais alto padrão de governança, porque vai ser fiscalizado. E nos permite lançar todos os produtos que temos. Não somos mais aquela solução de 2015, que tinha um produto específico. Agora, queremos ser uma solução financeira completa para qualquer estágio da vida do cliente, no Brasil ou no Exterior. Então, ir para banco na verdade virou um diferencial estratégico. Temos escala global capaz de suportar os custos adicionais.
Podemos ser essa infraestrutura que conecta o mundo, porque não tem ninguém tão global quanto nós.
Há poucos dias, um executivo global disse que a Revolut pretende ser um Pix do mundo. Como assim?
Na prática, a gente já faz uma proxy (algo semelhante)do Pix para nossos clientes. E a transação entre moedas diferentes dentro da Revolut funciona de forma instantânea, 24 por 7, sem custo na maioria das vezes. Inclusive, temos nossa própria chave Pix, o heavy tag (cartão feito de aço). O arroba (@) da Revolut pode mandar dinheiro, como se fosse um Pix internacional. E ainda nos conectamos aos pagamentos instantâneos em cada país que estamos. Podemos ser essa infraestrutura que conecta o mundo, porque não tem ninguém tão global quanto nós. Grandes bancos com presença em vários países, são, na verdade, entidades separadas. É difícil a comunicação, quase como se fossem dois bancos separados que usam a mesma marca. No nosso caso, não. Somos uma empresa só, de fato. Por isso, estamos bem posicionados para fazer esse proxy de Pix global.
Como passaram pela turbulência do IOF?
Nossa, isso foi, realmente... É muito difícil explicar como é possível uma mudança de regulação ou de lei que deve ser aplicada da noite para o dia. A gente recebe a notícia às 17 horas e, à meia-noite, tem de estar tudo implementado e executado. É uma questão cultural e de diferença de governança, não sei dizer que nome dar, mas deu trabalho. Num dia, tive de acordar pessoas ao redor do mundo, dizendo que havia uma contingência e precisávamos mudar aqui as regras do jogo e, à meia-noite, estar prontos. Ainda bem que é uma empresa de tecnologia, muito ágil e conseguimos executar. E aí, passam algumas semanas e volta atrás. Passam mais algumas semanas, vai de novo. Então, essa volatilidade regulatória é uma característica que só o Brasil tem, não vi, não tive essa experiência em outros lugares do mundo. Gera um desafio adicional. Seria bom que não tivesse esse tipo de coisa, mas paciência, é o que é e nós temos que seguir a regra.
Ajuda a explicar porque raros bancos estrangeiros têm sucesso no Brasil?
Sim, mas é importante deixar uma coisa clara. Não somos uma instituição estrangeira no Brasil, somos uma instituição financeira brasileira que se alavanca na tecnologia estrangeira e no capital que vem de fora, regulada pelo Banco Central que usa time local. Temos 160 pessoas no Brasil, cerca de 60 dedicadas à instituição financeira, outras cem a serviços compartilhados diversos, empresas de tecnologia. São duas empresas no Brasil, na verdade. Mas conectadas às sucessivas jabuticabas brasileiras. O fato de eu conhecer o Brasil ajuda a navegar nessas crises. Não posso chamar de sorte, mas, depois de ocorrido e superado, é sorte ter vivido tantas crises.
Quais serão os próximos passos da Revolut no Brasil?
Estamos concluindo os lançamentos do produto pessoa física neste ano. A última fronteira é um cartão de crédito premium para o Brasil. Em 2026, vamos nos focar em produtos para empresas, que vêm crescendo muito no mundo.






