
Depois que fracassou a mais recente tentativa de venda, ao polêmico empresário Nelson Tanure, a Braskem deve recorrer a uma medida mais drástica para tentar equilibrar suas contas: reestruturar sua dívida. Seria uma espécie de recuperação extrajudicial. A companhia publicou um curto comunicado nesta sexta-feira (26), em que afirma ter contratado consultoria para "diagnóstico de alternativas econômico-financeiras para otimizar a sua estrutura de capital (veja íntegra no final deste texto)".
No mercado, a interpretação é de que haverá tentativa de buscar prazos e condições melhores com credores. Depois do último balanço trimestral, em que a companhia teve geração operacional de caixa negativa de R$ 175 milhões (significa que gastou mais do que ganhou com sua atividade), agências de avaliação de risco reduziram as notas de crédito e cresceu a preocupação com a liquidez (capacidade de pagar os compromissos no cronograma previsto) da Braskem.
Ao final do segundo trimestre, a dívida líquida da empresa é 10 vezes maior do que seu resultado operacional (medido pelo Ebitda) anualizado. E na avaliação do mercado, o ciclo de baixa nos preços de resinas, um dos fatores que vêm pressionado as finanças da Braskem, só deve se encerrar entre 2027 e 2028. Isso tornaria o próximo ano ainda mais desafiador. De abril a junho, o prejuízo líquido foi de R$ 45 milhões, com dívida bruta chegando a R$ 49 bilhões.
Como a Braskem tem no polo petroquímico de Triunfo uma de suas maiores e mais atualizadas operações no Brasil, é possível que empresas gaúchas ou que atuam no Rio Grande do Sul sejam afetadas, dependendo dos termos da eventual reestruturação.
— Pode haver reflexo no RS, estão revendo estrutura de capital, avaliando se algum sócio pode aportar. Pode afetar o recolhimento de ICMS — observa José Luiz Zuñeda, diretor da consultoria Maxiquim, especializada no segmento.
A controladora da Braskem, Novonor (ex-Odebrecht), está em recuperação judicial. A sócia relevante, com participação quase igual, é a Petrobras. Se a estatal decidisse aumentar sua participação na empresa, poderia provocar uma estatização, como já foi cogitado em 2023. Depois do comunicado, as ações da Braskem despencam 13% na bolsa, a pouco mais de uma hora do fechamento.
A íntegra da nota
A Braskem S.A. vem informar aos seus acionistas e ao mercado em geral que contratou assessores financeiro e jurídicos para auxiliar a Companhia na elaboração de um diagnóstico de alternativas econômico-financeiras para otimizar a sua estrutura de capital. A Companhia reforça o compromisso com seus stakeholders e segue com foco na implementação de iniciativas de transformação para mitigar os relevantes impactos decorrentes do prolongado ciclo de baixa de toda a indústria e para o fortalecimento da competitividade da indústria química brasileira.
A Braskem manterá o mercado informado sobre eventuais desdobramentos materiais sobre o tema, em atenção à legislação aplicável.
O imbróglio da Braskem
A Braskem está à venda desde 2018. A companhia é controlada pela Novonor (ex-Odebrecht), que entrou em crise depois da operação Lava-Jato. A empresa privada tem 38,3% do capital total da Braskem e 50,1% das ações ordinárias, enquanto a Petrobras tem 36,1% do capital social e 47% das ordinárias.
O primeiro ensaio, em 2019, foi uma tentativa de evitar a recuperação judicial da então Odebrecht. Mas fracassou, por falta de transparência na avaliação dos passivos por danos na mineração de sal-gema em Maceió (AL). Não por acaso, o pedido de RJ veio 15 dias depois.
Desde então, a Braskem fez sucessivas reavaliações sobre suas despesas com indenizações a moradores, à prefeitura da capital alagoana e ao governo do Estado. Atualmente, está por volta de R$ 18 bilhões. Ainda houve uma tentativa de venda à estatal de petróleo de Abu Dhabi, a Adnoc, que também não avançou. A tentativa anterior mais recente havia sido uma negociação entre os bancos credores da Novonor para executar a dívida com garantia nas ações da Braskem e passar a gerir a empresa a partir do fundo Geribá, que já foi controlador da Polo Films, uma das raras empresas do polo que não pertence à Braskem.

