
Atualização: na tarde desta quarta-feira (24), o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Geraldo Alkmin, disse que big techs podem ser incluídas em negociação com Trump.
Ainda sequer está confirmada, muito menos tem data, a reunião anunciada na terça-feira (23) por Donald Trump com Luiz Inácio Lula da Silva. Depois da surpresa positiva inicial, o tom no governo brasileiro é de cautela. Comportamentos anteriores de Trump em encontros com chefes de Estado autorizam certa desconfiança sobre a súbita simpatia com Lula.
O fato de a ONU ter divulgado a foto do presidente dos Estados Unidos assistindo o duro pronunciamento do colega brasileiro tem interpretações opostas: quem torce contra um entendimento reforça o argumento de "cilada", quem vê uma chance real aponta que a manifestação favorável ocorreu como consequência de uma avaliação positiva da mensagem.
Mas do mercado financeiro a exportadores – especialmente os prejudicados pelo tarifaço de 50% imposto ao Brasil –, passando por consultores em comércio exterior, já começaram as discussões sobre o que o Brasil pode levar para o encontro.
O ponto de partida comum é a investigação ainda aberta pelo Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês). É óbvio que existem pontos tão inegociáveis quanto a soberania e a independência entre os três poderes – caso do Pix, um eficaz serviço público prestado aos brasileiros. Mas outros tópicos podem permitir alguma negociação (veja lista detalhada ao final do texto).
A lista do USTR, como se sabe, é polêmica por incluir, além do Pix, até o comércio da Rua 25 de Março, em São Paulo. Mas existem pontos vistos como passíveis de debate – não de simples aceitação. Os principais são os impostos de importação de produtos americanos cobrados pelo Brasil – especialmente o do etanol – e temas de propriedade intelectual sérios, ou seja, que não envolvam camelôs do tipo tradicional.
Pontos passíveis de debate
- Tarifas: segundo o USTR, o Brasil concede tarifas preferenciais mais baixas às exportações de certos parceiros comerciais globalmente competitivos, prejudicando as exportações americanas. A desistência da China de tratamento preferencial na OMC pode ajudar.
- Etanol: é fato que a alíquota de importação do etanol americano do Brasil era muito mais elevada (18%) do que a cobrada nos EUA sobre o mesmo produto brasileiro que entra nos EUA. Curiosamente, o produto ficou fora do tarifaço, e até por isso há espaço para alguma negociação.
- Fiscalização anticorrupção: os EUA veem "falha do Brasil em fiscalizar medidas anticorrupção", ponto reforçado no pronunciamento de Trump na ONU. É interesse nacional apertar essa vigilância, ponto que pode ser reforçado pela rejeição da PEC da Blindagem.
- Proteção da propriedade intelectual: os americanos temem regras nacionais de proteção e fiscalização, que podem ser adequadas. Desde, claro, que não incluam o comércio da 25 de Março, o mesmo que existe na famosa Canal Street de Nova York.
- Desmatamento ilegal: a cobrança, em especial depois do discurso recheado de barbaridades climáticas de Trump na ONU, soa um tanto ridícula, mas interessa ao Brasil discutir o fim desse crime ambiental. Difícil será avaliar se Trump vai se interessar mesmo pelo assunto.





