
Maior gestor de patrimônio do mundo, o banco suíço UBS abriu neste mês um escritório em Porto Alegre. É uma das cerca de 40 unidades em seis países da América Latina. Conforme Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Global Wealth Management, a inclusão da capital gaúcha se justifica pelo potencial econômico da região. A economista se diz surpresa com a diversidade de setores relevantes e a existência de um polo de tecnologia no Estado de um país que não favorece o segmento.
Como avalia o comunicado do Banco Central (BC), foi muito duro?
Já previa que viria com discurso duro, porque o BC não está confortável com o mercado precificando corte no juro ainda neste ano. As expectativas de inflação seguem desancoradas, ainda que tenham caído, há muita dúvida sobre o alcance da desaceleração e existe uma incerteza fiscal enorme. E o tema fiscal é crucial para o BC, porque impacta câmbio, expectativa de inflação, atividade. Apesar de não poder afirmar de forma explícita, a maior incerteza do BC é em relação ao fiscal. Por isso, tendem a postergar o corte o máximo possível. Foi mais duro ao trazer projeção de inflação de 3,4%, que todo mundo esperava que caísse para 3,3% ou 3,2% (no primeiro trimestre de 2027, atual "horizonte relevante" do BC). Considero proposital, até para passar a mensagem de que se o corte for antecipado, a inflação não vai para a meta nesse prazo.
Não foi explícita, mas a preocupação fiscal apareceu no comunicado...
Sempre tem, porque realmente impacta o cenário prospectivo de inflação. Também faz parte de não querer que o mercado antecipe o corte, porque há muita incerteza fiscal, que vai ser definidora da trajetória de inflação. O BC está cauteloso e faz todo sentido. Se a gente estivesse com as expectativas ancoradas, talvez eles pudessem tomar mais risco, mas não é o caso.
O corte no juro nos Estados Unidos ainda pode provocar queda forte no dólar por aqui?
O câmbio já reagiu a um cenário internacional muito favorável que veio para o Brasil e atingiu outras moedas emergentes também. Como o Brasil estava com o câmbio depreciado, foi bastante beneficiado. Se continuar a desaceleração da economia americana, do mercado de trabalho e inflação não subir muito, o Fed (Federal Reserve, BC dos EUA) pode cortar mais e esse ambiente internacional dura mais tempo, com valorização do real. Mas, em algum momento, mais para o segundo trimestre do ano que vem, o cenário eleitoral e a probabilidade de haver mudança de política fiscal ou não devem afetar mais os preços de ativos no Brasil.
Há temor de que a inflação suba nos EUA por efeito do tarifaço. Isso pode limitar os cortes de juro por lá?
Primeiro, houve grande incerteza sobre qual a tarifa que prevaleceria no final, porque cada dia havia mudança de alíquota, de setor. As empresas não repassaram logo as tarifas porque temiam perder participação no mercado. Seguraram muito o repasse. Depois, houve acúmulo de estoque e antecipação de importações no primeiro trimestre do ano, porque todo mundo sabia que haveria tarifa. Agora, no segundo semestre, as empresas estão com as margens diminuídas por terem absorvido a tarifa e os estoques acabaram. Há tendência de aumento da inflação até 2026. O grau desse repasse vai depender da demanda, porque há desaceleração da economia americana. O Fed talvez aposte que, com maior desaceleração, esse repasse vá ser menor.
Como o fator Trump condiciona a economia global? Serão mais três anos de alta incerteza?
Nossa avaliação é de que esse mundo mais desglobalizado e com maior risco geopolítico não depende só de Trump. Veio para ficar. Não serão alguns anos de uma nova ordem global, depois volta à ordem antiga. O advento da China como grande líder, não só na indústria, mas em tecnologia e em oferta de bens essenciais, como terras raras, traz ameaça à segurança nacional de vários países. Estamos em um mundo novo e temos de entender isso. Vai ser um mundo de mais barreiras, não só comerciais mas tecnológicas e para investimento. O mundo está mais dividido e vai haver maior fragmentação econômica.
Voltando ao Brasil, a desaceleração aparece em alguns indicadores, mas não é generalizada, não?
Sim, e por mais que a economia esteja desacelerando agora, no segundo semestre, o mercado espera, e o BC também, que ocorram mais estímulos fiscais. Alguns já estão contratados, como a aprovação da isenção do IR, o Vale Gás, tarifa social, algum aumento real no Bolsa Família. A desaceleração que está acontecendo agora não pega toda a economia e ninguém espera que se acentue muito, porque vamos ter uma aceleração do impulso fiscal.
Existe temor de que a isenção do IR seja aprovada sem compensação?
Olha, temor existe sempre, mas não é o cenário que está precificado, que o mercado espera como provável. Se ocorrer uma desidratação muito grande da compensação ou se não ocorrer, vai trazer aversão maior a risco, com certeza. O impacto da isenção do IR é bastante significativo nos próximos anos. As metas de primário já são insuficientes para estabilizar a dívida. Se a gente nem cumpri-la, vai ficar mais complicado ainda.
Há poucos dias, a IFI voltou a advertir sobre a "lenta e gradual deterioração da situação fiscal". Pode piorar?
Não vejo deterioração tão lenta assim, porque a relação dívida/PIB vai aumentar perto de 10 pontos do PIB em quatro anos, é bastante. O arcabouço provavelmente não se sustente em 2027 com as regras atuais de gasto obrigatório, como indexação do salário mínimo nos benefícios sociais e indexação de saúde e educação à receita. Sem choque fiscal importante, com mudanças na Constituição, teremos uma regra fiscal em que ninguém crê. E a dívida pode crescer com ainda maior rapidez. A falta de solução leva o juro real para um patamar ainda mais alto do que o atual. O mercado espera um ajuste. O que não sabe é será sem muita dor, no sentido de que a economia não precise entrar em desaceleração profunda ou a inflação não se acelere muito, ou com dor, que é o cenário em que a crise faz o ajuste se impor. Sem ajuste não tem arcabouço e, sem arcabouço, a crise aparece.
Não há solução sem desvinculação do salário mínimo e das despesas de saúde e educação?
Se houver tentativa de desvincular os benefícios sociais dos reajuste do salário mínimo, haverá judicialização e criará insegurança jurídica. Provalmente o Supremo vai decidir que é inconstitucional pagar benefícios sociais menores porque é entendido, até esse momento, como mínimo para subsistência. O mais razoável é alterar a regra do salário mínimo. Não precisa crescer com o PIB. Pode ficar sem regra nenhuma ou ser reajustado pela inflação todo ano, que seria o razoável. É impossível manter reajuste acima da inflação para o salário mínimo quando ajusta quase dois terços das despesas assistenciais e da previdência.
E no caso das despesas?
O ideal também seria vincular à inflação, como era quando vigorou o teto de gastos. Faz mais sentido. Quando a economia cresce muito, o gasto contratado à frente aumenta e nem sempre esse crescimento continua. Aí o crescimento real das despesas com educação e saúde fica muito elevado. E não cabe nas metas porque a economia arrecada menos.
Essas medidas bastariam?
Não, precisamos fazer um redesenho completo das políticas públicas. Temos aumento quantitativo, muito forte de benefícios como BPC, auxílio-doença e seguro-desemprego. É preciso torná-los mais focais, destinadas a quem precisa, de fato. No caso do seguro-desemprego, é preciso incentivar a qualificação e a volta ao mercado de trabalho. Algo está muito errado quando o seguro-desemprego cresce tanto com o desemprego no mínimo da série. É preciso fazer esse debate. Tem algo muito errado acontecendo. Imagina se o desemprego subir, o que vai acontecer?
Há suspeita de fraude, há um diagnóstico consolidado?
Fraude certamente existe, mas também há mudanças que aconteceram nas regras de concessão do BTC e do auxílio-doença, até para facilitar o acesso e utilizar tecnologia sem precisar de exame médico presencial, por exemplo. É preciso entender se esse desenho facilitou. Talvez a fraude não ocorresse se o desenho fosse melhor. Mas é preciso bater nas duas coisas, porque fraude é fraude. E é preciso permitir que as pessoas no BPC que possam sair, assim como as que estão no seguro-desemprego. Tem de mudar muita coisa. E será preciso avançar com as reformas administrativa e previdenciária. A da previdência perdeu a eficácia em termos de economia com a mudança na regra do salário mínimo, está desatualizada em idade mínima e precisa incorporar grupos que não foram abrangidos, como os militares.



