
Em uma semana que já havia trazido de volta um fantasma que parece inefável na Argentina: o do default, nesta quarta-feira (17), o dólar fechou acima do teto da meta combinada com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A coluna havia publicado mais cedo uma nota mencionando esse risco, mas a ameaça se concretizou mais cedo do que se temia.
O furo no teto cambial exigiu que o Banco Central da República Argentina (BCRA) vendesse moeda estrangeira na tentativa de frear a desvalorização do peso. O dólar no atacado, referência de mercado, fechou em 1.474,50. Conforme o BCRA, citado pelo jornal Ámbito, especializado em economia, foram desembolsados US$ 53 milhões. Parece um valor pequeno perto das intervenções do Banco Central no Brasil – quase sempre na casa do bilhão de dólares –, mas o mercado argentino é muito menor e tem mais restrições do que o nacional.
O governo está diante de um dilema: se tiver de seguir vendendo dólares para defender o teto, perde capacidade de pagar dívidas futuras, porque vai gastar reservas. Se não o fizer, quebra o acordo com o Fundo, e pode perder a credibilidade de banda, como ocorreu no Brasil em 1999. O BCRA não fazia intervenção no câmbio desde 11 de abril, quando implementou a chamada "flutuação suja" – por prever esse tipo de interferência.
Deste mês até janeiro o governo tem US$ 8,1 bilhões em vencimentos de dívida em dólar com organizações privadas e multilaterais. No entanto, o Tesouro teria valores próximos a US$ 1,1 bilhão, o que significa que faltariam US$ 7 bilhões para cumprir os compromissos nos próximos quatro meses.
Milei recobrou, com uma apresentação do orçamento considerada "moderada", alguma autoridade perdida depois do escândalo de corrupção que envolveu sua irmã, Karina, uma espécie de seu braço direito no governo. Também ganhou apoio do partido do ex-presidente Mauricio Macri, o PRO, que afirmou em nota apoiar "o equilíbrio fiscal como base da mudança".
Como funciona a banda cambial
O acordo com o FMI em abril prevê que o dólar flutue entre um mínimo e um máximo. Começou de 1 mil a 1,4 mil e, a cada mês, esse intervalo sobe 1%, com ajustes diários.





