
O jornalista Anderson Aires colabora com a colunista Marta Sfredo, titular deste espaço.
Termina neste sábado (23) o contrato de exclusividade entre a Novonor (ex-Odebrecht) e o polêmico empresário Nelson Tanure para potencial venda de controle da Braskem, dona da maior parte do polo petroquímico de Triunfo.
Há chance de mais uma negociação fracassar? Conforme comunicado apresentado pela petroquímica nesta sexta-feira (22), a Novonor "permanece em tratativas" com o fundo Petroquímica Verde, de Tanure, apesar do encerramento do prazo de exclusividade (leia íntegra abaixo).
Em julho, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a operação para Tanure se tornar dono da Braskem. No início desta semana, no entanto, houve uma alteração no processo que tem potencial de atrasá-lo ou até barrá-lo: o Cade aceitou a participação da Petrobras nas tratativas, como terceira parte interessada. A estatal tem 36,1% do capital total e 47% das ações ordinárias (que permitem direito ao voto) da petroquímica e alega que deveria ter sido notificada da intenção de venda.
Para José Luiz Zuñeda, especialista do setor e sócio-fundador da Maxiquim, este é um dos pontos que indicam que a negociação pode fracassar: parece haver uma certa resistência da Petrobras em finalizar as tratativas com Tanure.
É bom lembrar que, caso o acordo não se confirme, será mais uma das tantas tentativas frustradas de vender a Braskem desde 2018. Não avançaram várias conversas, desde a oferta da estatal de petróleo de Abu Dhabi, a Adnoc, até o mais recente ensaio de repasse ao principais bancos credores da Novonor.
Desta vez, também pesam contra o avanço das negociações, conforme informações que circulam no mercado, a ausência de apoio dos bancos credores, que têm ações da petroquímica como garantia, e incertezas quanto ao passivo da Braskem em Alagoas. É bom lembrar que o setor químico ainda opera com o maior nível de ociosidade em 30 anos.
— A solução é ter uma petroquímica forte, como no passado. Tendo uma petroquímica forte, tem matéria-prima para atender e dá para competir com os outros que estão querendo colocar o produto no Brasil — diz Zuñeda, que sugere aumento de participação da Petrobras na Braskem, sem fazer movimento de estatização da petroquímica, para resolver o impasse.
A íntegra da nota
A Braskem S.A. ("Braskem" ou "Companhia") (Ticker B3: BRKM3, BRKM5 e BRKM6; NYSE: BAK; LATIBEX: XBRK) vem comunicar aos seus acionistas e ao mercado em geral que recebeu, nesta data, informação enviada pela Novonor S.A. – Em Recuperação Judicial a respeito do processo de alienação da sua participação na Companhia conforme abaixo:
Fazemos referência à proposta recebida do Petroquímica Verde Fundo de Investimentos ("Fundo") em 23.5.2025 ("Proposta"), para informar a V.Sas que, inobstante o encerramento do prazo de 90 dias de exclusividade para negociação dos termos e condições da referida Proposta, a Novonor permanece em tratativas com o Fundo para a alienação da sua participação. Permanecemos à inteira disposição.
A Braskem informa que manterá o mercado informado a respeito de eventuais desdobramentos relevantes sobre o tema, em cumprimento às legislações aplicáveis
Quem é Nelson Tanure

Nelson Sequeiros Rodriguez Tanure nasceu em Salvador (BA), em 1951. Filho de um comerciante libanês, fez carreira no Rio de Janeiro, onde se tornou conhecido por comprar empresas quebradas ou endividadas, que buscar recuperar por meio de reestruturação financeira e novos investimentos.
Já teve atuação em Oi, Gafisa, Light e além de pequenas empresas do setor de petróleo e infraestrutura. Nos anos 2000, ganhou visibilidade com a compra de jornais como o tradicional Jornal do Brasil e o arrendamento da Gazeta Mercantil.
Embora seus negócios sejam quase sempre barulhentos e, não raro, sofram disputas judiciais, Tanure tem perfil discreto, raramente concede entrevistas e atua por meio de fundos de investimento, como Société Mondiale, WTN e o Petroquímica Verde.
Atualmente, além do negócio com a Braskem, negocia a rede espanhola de supermercados Dia, com 246 lojas em São Paulo e avalia uma fusão com o GPA, grupo controlador das marcas Pão de Açúcar, que já foi de Abílio Diniz, e Extra, com cerca de 700 lojas no Brasil.
O imbróglio da Braskem
A Braskem está à venda desde 2018. A companhia é controlada pela Novonor (ex-Odebrecht), que entrou em crise depois da operação Lava-Jato. A empresa privada tem 38,3% do capital total da Braskem e 50,1% das ações ordinárias, enquanto a Petrobras tem 36,1% do e 47% das ordinárias.
O primeiro ensaio, em 2019, foi uma tentativa de evitar a recuperação judicial da então Odebrecht. Mas fracassou, por falta de transparência na avaliação dos passivos por danos na mineração de sal-gema em Maceió (AL). Não por acaso, o pedido de RJ veio 15 dias depois.
Desde então, a Braskem fez sucessivas reavaliações sobre suas despesas com indenizações a moradores, à prefeitura da capital alagoana e ao governo do Estado. Atualmente, está por volta de R$ 18 bilhões. Ainda houve uma tentativa de venda à estatal de petróleo de Abu Dhabi, a Adnoc, que também não avançou. A tentativa anterior mais recente havia sido uma negociação entre os bancos credores da Novonor para executar a dívida com garantia nas ações da Braskem e passar a gerir a empresa a partir do fundo Geribá, que já foi controlador da Polo Films, uma das raras empresas do polo que não pertence à Braskem.
*Colaborou João Pedro Cecchini




