
Quando a ordem administrativa de Donald Trump impondo tarifa de 50% ao Brasil foi publicada, na quarta-feira, vários líderes de setores exportadores estavam em Goiânia, em uma reunião da Coalizão Empresarial, entidade focada exatamente no comércio exterior. Um deles era José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), que participou do estresse para identificar o tamanho do problema. Depois de processar, avalia que foi melhor do que se imaginava, mas é “ruim”.
Qual é sua avaliação do tarifaço?
Bem, foi melhor do que se imaginava, mas está ruim. E está ruim porque era para não existir nada disso. A expectativa era parar nos 10% (tarifa para o Brasil definida em abril) ou voltar à situação anterior. Pular de 10% para 50% foi um salto que não tem base técnica.
Vê alguma explicação?
Sempre disse que Trump toma decisões por impulso. Essa foi mais uma. Ele estava preparado para anunciar 10%. De repente, simplesmente mudou e passou para 50%, que é inviável para todo mundo, inclusive para ele.
A maioria dos setores avalia que a tarifa de 50% inviabiliza vendas para os EUA. É viável para algum setor exportador brasileiro?
É muito difícil, muito. Com o anexo 1, a lista de exceções, sobraram cerca de 60% do total que estão fora da lista. E isso representa cerca de US$ 25 bilhões. Esse é o potencial de perda do Brasil se não conseguir exportar para os EUA ou outro mercado.
O problema é que, nesse momento, todos querem buscar onde exportar e poucos querem importar.
Há como buscar outros mercados?
O problema é que, nesse momento, todos querem buscar onde exportar e poucos querem importar. Então, é um cenário difícil, não tem como abrir novos mercados agora. Abrir mercado não é algo que se faça hoje e já se exporte amanhã. Demanda tempo. Por isso tenho expectativa que possa mudar em 15 dias, um mês ou até menos.
Que mudança seria essa?
Incluir mais produtos na lista de exceções. Caso contrário, vai gerar desemprego nos EUA e também aqui no Brasil, principalmente aqui.
A AEB conseguiu entender a lógica da lista de exceções?
Não tem lógica. O café era considerado certo na lista de exceções, por exemplo. Talvez tenha sido resultado de negociação com muitas pessoas diferentes. Cada um pensa de uma forma. Então isso fez com que você tivesse diferentes resultados finais de inclusão ou exclusão de produtos. Mas não tem uma linha de coerência, que começa e chega ao final. Deve ter havido muitos empresários americanos que foram negociar, uns mais competentes outros menos competentes. Isso fez com que a lista tenha produtos que se justifiquem e produtos que não tem nenhuma justificativa.
Tem buzina para bicicleta por exemplo. Quem exporta buzina de bicicleta para os EUA?
Nem imagino. O pior é que o valor é pequeno, perde-se tempo.
Não tem nenhuma justificativa técnica para não incluir o café nas exceções.
Uma das teses é de que ganhou exceção quem fez lobby mais efetivo, mas o setor de café deve ter canais eficientes nos EUA, não?
Sim, estão bem ativos, bem atuantes. Os EUA consomem muito café do Brasil. Muito (34% do café consumido nos EUA é brasileiro). Então, não é por desconhecimento. Não tem nenhuma justificativa técnica para não incluir o café nas exceções. Mas não foi, assim como a carne.
É viável a inclusão de café, carne e frutas nas exceções até o dia 6?
Considero bastante viável que faça revisão. Porque o anúncio ocorreu no atropelo. A lista deve ter ficado pronta de última hora. Não entendemos ainda porque apresentado na quarta, não na quinta, data que todo mundo estava esperando.
Na justificativa da ordem executiva, é mencionado o decreto de emergência baseado em "grandes déficits" dos EUA. É juridicamente sustentável?
Não justifica. Os EUA sempre tiveram déficit comercial, porque compensava com superávit na conta de serviços.
Que risco o tarifaço representa para os empregos?
Sim, quem estiver sob tarifa de 50% vai ter muita dificuldade de fazer negócio. Terá de buscar outros mercados, se é que existem. Se conseguir, provavelmente o preço vai ser outro. Haverá oferta maios do que a demanda e elevação de custos. O pior é saber se a empresa tem recurso suficiente para investir na tentativa de abrir novos mercados. Nem todo exportador é capitalizado. Então, vai haver demissões, infelizmente.
Para cada US$ 1 bilhão perdidos em exportação, perde-se de 25 a 30 mil empregos diretos e indiretos, ao menos em produtos manufaturados.
Dá para esperar o plano de contingência do governo federal?
Até agora o governo não se mexeu. Talvez esteja com certo receio de adotar medidas que deem impressão que seja eleitoreira. Estamos tentando discutir o problema de uma ótica comercial, não politizar a operação. Mas precisamos saber o que pode ser feito. Para cada US$ 1 bilhão perdidos em exportação, perde-se de 25 a 30 mil empregos diretos e indiretos, ao menos em produtos manufaturados.
A lista de exceções tem mais produtos industrializados do que matérias-primas. Tem explicação?
No Brasil, queremos exportar mais manufaturados e menos commodities, se for possível. Agregar mais valor. Mas não temos condições de escolher. Para os EUA, exportamos mais manufaturados do que commodities. Para o resto do mundo, é o oposto. E é por isso que os EUA têm importância: são o maior importador mundial de produtos manufaturados do Brasil.
A AEB revisou sua projeção da balança comercial do Brasil para 2025, com redução no saldo positivo, mas por aumento de importação. O tarifaço não derruba as exportações?
As exportações vão cair, se nada acontecer de milagroso até o final do ano. As importações estão crescendo há três anos. O principal motivo é a China, que oferece produtos, mesmo que a empresa não precise. Mas vende oferecendo financiamento em condições muito interessantes. Então, as importações sobem, enquanto as exportações estão estáveis. E há receio de que as medidas de Trump joguem os preços das commodities ainda mais para baixo. Por exemplo, já é o terceiro ano que a soja cai.
Hoje, as exportações brasileiras para os EUA são 12% do total, mas há duas décadas eram de 25%. Foi bom ter diversificado nesse período?
Sim, diversificação sempre bem-vinda. Mas foi foi algo planejado pelo Brasil. Foi um ajuste do mercado. Concentração aumenta o risco, se hoje houvesse mais dependência dos EUA, seria muito mais complicado do que já está sendo.
Como os exportadores veem a possibilidade de algum tipo de retaliação?
Não vejo como adotar retaliação hoje. Qualquer atitude que se tome pode deixar um ranço.
A AEB vai acompanhar, como parte interessada, a investigação do Representante de Comércio dos EuA (USTR na sigla em inglês)?
Isso parece jogo de cena. Depois, se não acontecer nada, a gente ficaria meio constrangido em dizer que nada aconteceu. E adotar alguma coisa nessa área também, pode cutucar a onça com a vara curta.
Mas o processo não prevê exatamente a participação das partes interessadas para dar explicações?
Sim, quando está atendendo uma demanda, respondendo algum ponto. E essa resposta tem que ser a mais técnica possível.





