
O jornalista Anderson Aires colabora com a colunista Marta Sfredo, titular deste espaço.
Em meio a sinais mais claros de desaceleração da economia, a estimativa de inflação para 2025 apareceu abaixo dos 5% no boletim Focus pela primeira vez no ano desde janeiro. No relatório desta segunda-feira (18), a expectativa de Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para o fim de 2025 figurou em 4,95% — abaixo dos 5,05% da semana passada.
De um lado, o leve recuo mostra o efeito do aperto na política monetária. Do outro, ainda não na intensidade necessária para sonhar com corte no juro neste ano — segundo a maior parte do mercado. Aliás, vale lembrar que o teto da meta de inflação para 2025 é 4,5%.
O flerte com IPCA na casa dos 4% já vinha acontecendo — essa é a 12ª semana com redução nas expectativas de inflação dentro do relatório, que é chamado informalmente de "consenso de mercado".
A descida de lomba na estimativa ocorre em meio a câmbio estável, clima favorável e boa safra, como lembra o economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
Além disso, a perda de ritmo no consumo, indicado pela Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) de junho, e emprego que, apesar de ainda resiliente, já apresenta sinais de desaceleração, também contribuem para essa inversão de curva na esteira de juro básico em 15% ao ano.
— Nota-se pelo comportamento dos bens duráveis. A inflação em torno desses itens está abaixo da meta, mostrando os efeitos da política monetária. Juros mais altos desestimulam a demanda por itens comprados via financiamento — completa Braz.
Selic
Como destaca Braz, os indicadores mais recentes mostram economia respondendo ao efeito mais cheio do juro básico elevado. Mas ainda não parecem abrir a porta para a antecipação do corte da Selic.
Mesmo com mais um corte na projeção de inflação, os economistas que assinam o Focus mantiveram a estimativa de Selic aos 15% até a reta final de 2025.
Braz também segue essa corrente, não enxergando espaço para corte no juro no segundo semestre. Isso porque o recuo na inflação não deve jogar a média de preços para dentro da meta:
— Acho que, se não tivermos outras surpresas do Trump, teremos outras revisões baixistas para a inflação. Contudo, a inflação tende a ficar acima do intervalo de tolerância da meta. Por conta disso, acredito que a Selic só recuará em 2026.
Mas existe um grupo de economistas — mais discreto — que enxerga espaço para corte da Selic ainda em 2025. Um deles é André Perfeito, que calça no "real mais forte, atividade mais fraca e expectativas de inflação mais comportadas" a janela de oportunidade para redução de juro antes do previsto.
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