
Um dos líderes do segmento de biocombustível no Brasil, o presidente da Be8, Erasmo Battistella, deu entrevista à coluna nesta quarta-feira (2), antes de fazer palestra na Federasul. Alertou para a necessidade de cuidado com a competitividade do RS e disse que seu projeto no Paraguai passa por reformulação diante das exigências internacionais para o combustível verde de aviação (SAF).
O aumento da mistura de biocombustíveis tanto no diesel quanto na gasolina é uma retomada?
O B15 (mistura de 15% de biodiesel no diesel) é de uma lei de 2014 e já deveria ter entrado em vigor até 2020. Depois, repactuamos o cronograma, e deveria ter sido implementado em março deste ano. Houve mudança por parte do governo (anterior), por questões inflacionárias, embora tivéssemos alertado que não tinham relação com o B15. Depois, se comprovou, até porque colhemos a maior safra de grãos da história do Brasil. Agora, a partir de 1º de agosto, conforme publicado hoje (quarta-feira, 2) no Diário Oficial, entra em vigor o B15. O setor vê como uma organização de um cronograma que veio atrasado, mas reconhece que é muito importante.
Pode haver algum tipo de problema para suprir essa nova demanda?
Hoje, o Brasil tem capacidade para suprir imediatamente o B18. Tem (capacidade em) fábrica sobrando. E, com os projetos já anunciados, se todos forem implementados, vamos ter fábrica no Brasil para atender o B21. É algo que impacta a indústria gaúcha. Historicamente, o RS era líder na produção, hoje é o Mato Grosso.
Por que o RS perdeu a liderança?
Somos menos competitivos em custo de matéria-prima e logística. O RS é um Estado que, se fosse fazer ampliação de capacidade produtiva, nossa empresa não faria de biodiesel. Por isso, decidimos ir para o etanol no RS e não aumentar a capacidade de biodiesel. Também estamos sem ferrovia no RS. Só a nossa fábrica de Passo Fundo vai gastar, neste ano, R$ 7 milhões a mais em frete para transportar o biodiesel que antes era transportado por ferrovia.
Está crescendo no Brasil a produção de etanol de milho. A Be8 estuda entrar nesse mercado?
O etanol de milho começou no Brasil há pouco mais de 10 anos e hoje tem uma participação relevante. O de cana ainda é muito mais competitivo. O projeto que desenvolvemos no RS é bastante inovador e disruptivo, mas já existe produção de etanol de trigo em países como Polônia, Áustria, Canadá e Inglaterra. Estamos focados agora em finalizar essa obra, com a expectativa de que, até o final do ano que vem, já comecemos a produzir. Depois, vamos olhar os próximos passos no mercado de etanol. Também foi anunciado o aumento da mistura do E30 (mistura de 30% de etanol na gasolina), o que é muito importante para nosso projeto. Para o Estado, esse aumento exigirá mais importação de etanol, o que torna nosso investimento ainda mais estratégico para o RS. Etanol de milho, no futuro, pode ser uma alternativa, mas fora do RS, porque produzimos pouco milho no Estado. Nossa unidade (em construção) está preparada tanto para milho quanto para trigo. Se, no futuro, o RS aumentar sua produção de milho, teremos condições de atender.
O setor de transportes diz que os caminhões são prejudicados pelo biodiesel. Como resolver?
Nosso setor quer mais fiscalização na cadeia de combustíveis. Temos absoluta certeza de que o biodiesel sai das fábricas com qualidade. Precisa chegar ao consumidor final com qualidade. Temos uma série de outros problemas outros problemas na cadeia de combustível. Então, se o biodiesel for de qualidade e se fizer todos os cuidados que precisa para o combustível, não terá problema técnico. Desde a primeira especificação do biodiesel, de 2005 até agora, já foram cinco evoluções de especificação. Hoje, temos o melhor biodiesel do mundo, mas precisa ter cuidado na cadeia como um todo para que o produto chegue com qualidade ao cliente final.
Como está o projeto da Be8 no Paraguai?
Avançamos no esmagamento de soja e estamos produzindo biodiesel. Concluímos as obras de instalação da zona franca no projeto de SAF (combustível sustentável de aviação). Agora, para começarmos a construção, estamos negociando contratos de longo prazo para fornecimento do SAF. Esse é um mercado global, não um mercado regional, como de etanol e biodiesel. Assim que avançarmos com os contratos, avançamos com a obra. Antes disso, não vamos começar a obra
Mas já não havia pré-contratos?
Fizemos contratos lá atrás, mas nós mesmos cancelamos, diante da mudança na certificação do SAF a nível mundial. Por exemplo, a Europa não aceita SAF de óleo de soja, o que impacta no nosso projeto. Tivemos que reestruturar o projeto, e essa mudança ocorreu durante a fase subsequente à assinatura dos contratos. Não posso manter um contrato se minha principal matéria-prima não é aceita no principal mercado de exportação. Reorganizamos o projeto e agora estamos renegociando contratos.


