
Agora que a imposição da tarifa de 50% parece inevitável – desde que Donald Trump encontre base legal –, parte do governo Lula começa a adotar o discurso de que a medida terá "impacto inflacionário positivo". É a repetição da falácia que já circulava em meios antípodas: se a exportação vai diminuir, terá mais produto disponível no mercado interno, e os preços vão cair. Será?
O sinal do secretário de Comércio, Howard Lutnick, de que alimentos como café, cacau e... manga podem ter tarifa zero abalou essa tese, mas antes já estava cheia de buracos. Uma das primeiras reações ao tarifaço veio dos exportadores de frutas. Ao falar sobre o desafio do redirecionamento da safra de manga, o presidente da Abrafrutas, Guilherme Coelho, desenhou a lógica do mercado:
— Infelizmente, não podemos pegar essa manga e jogar na Europa, o preço vai exalar, não tem logística. E não podemos colocar essa manga no Brasil, porque vai colapsar o mercado.
Os brasileiros têm um episódio histórico que talvez precise ser reestudado: a queima de café depois da quebra da bolsa americana em 1929. O episódio desencadeou a chamada Grande Depressão, que levou ao empobrecimento dos americanos, com consequente queda forte no consumo do grão, que era muito dependente da importação dos EUA.
Os preços desabaram e, para evitar que seguissem afundando, o governo de Getulio Vargas comprou toneladas do produto. E queimou, para reduzir a oferta e, em consequência, aumentar preços.
No caso da manga, Lutnick abriu uma janela, o que parece reduzir o risco de vermos montanhas de fruta apodrecendo no Brasil. Mas a lógica para outros produtos segue a mesma: há limite para a queda de preços. E não só por ganância. O preço de venda precisa compensar, com sobra, o custo da produção. Sem essa remuneração, cultivar ou fabricar quantias futuras se torna inviável.
A inflação está caindo no Brasil, como resultado do juro estratosférico que deve ser mantido no início da noite pelo Banco Central (BC). Mas esperar que sobras de exportação ajudem é um sonho de noites de inverno.
*Colaborou João Pedro Cecchini





