
É difícil dimensionar o tamanho do absurdo que representa o ataque a faca na escola Escola Municipal Maria Nascimento Giacomazzi, de Estação, município no norte do Estado. O cenário de filme de terror, até há pouco restrito a países longínquos, chegou a uma pequena cidade gaúcha.
Ainda não se sabem as circunstâncias que levaram à agressão do adolescente que provocou a morte de Vitor André Kungel Gambirazi, de 9 anos. Mas matanças em escolas costumam trafegar em aplicativos de internet como se fossem cenas do cotidiano.
Uma recente lição que a jornalista que assina esta coluna aprendeu veio de Marie Santini, fundadora e diretora do Netlab, o Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela fez um alerta ao qual todos precisamos prestar atenção:
— Esse problema não é individual, é coletivo e precisa de regulação. É impossível parar isso no nível individual. É preciso tratar esse problema coletivamente.
Didática, a pesquisadora comparou o vício em redes sociais ao do cigarro, que embora persista, foi enfrentado e reduzido:
— Havia todo um fetiche do cigarro, que não teria sido barrado sem regulação. Hoje existe o fetiche da rede social, as pessoas acham que não podem viver sem, é muito parecido.
Não há palavras capazes de consolar os pais de Vitor. O que não podemos fazer é dizer que os pais do agressor deveriam ter controlado suas redes sociais. Não é um problema individual, é coletivo.
Os que ainda têm responsabilidade relacionada à civilização – muitos já se demitiram para aderir à corrida do voto, da fama e da audiência – precisam evitar que outras crianças de nove anos morram porque não fizemos nosso papel. Marie Santini vê uma chance:
— Enfrentamos esse desafio que fazia milhares de pessoas morrerem de câncer de pulmão com um trabalho de anos, mostrando como era ruim, sempre baseado em ciência e em dados. Não foi retirada a liberdade de fumar das pessoas, mas não podem contagiar as outras com esse comportamento tóxico — projeta.




